27.9.16

Eduardo Lourenço e papel dos intelectuais no mundo de hoje


Hoje, Mário Mesquita iniciou as suas conferências sobre O Regresso dos Intelectuais em Tempo de Crise, dando lugar a Eduardo Lourenço, professor, ensaísta e filósofo. Durante 35 minutos, ouvimos este homem sábio falar (as notas abaixo são um mero registo de ideias, como apontamentos de uma aula na universidade). A ligação para o som da conferência está em baixo (aumentar o volume do som para ouvir).

De começo, Eduardo Lourenço recordou o primeiro mártir intelectual, Sócrates, aquele que interrogava o outro e pedia explicações das suas razões. Ao contrário do aristocrata Platão, homem rico, Sócrates mercadejava o seu saber ensinando alunos e extraindo daí dinheiro para viver. Sócrates, uma espécie particular de sofista, um misto de intelectual e jornalista, despertou animosidade na cidade de Atenas e seria condenado. Kierkegaard, para criar o seu método filosófico, inspirou-se em Sócrates e nos diálogos socráticos.

Eduardo Lourenço passaria à frente, porque a genealogia do termo intelectual ocuparia muito tempo e centrou-se na crise atual que a Europa e o mundo discutem, iniciada com a bomba atómica no Japão e, mais perto de nós, com a destruição das torres gémeas de Nova Iorque. Alguém quis punir a América para vingar humilhações históricas verdadeiras ou não. Sem se dar muito por isso, e apesar do apocalipse das Primeira e Segunda Guerras Mundiais, está em curso um desafio de novo tipo ao sistema da civilização ocidental. É certo que uma parte do mundo foi objeto da predação das nações do ocidente, como a China e o Islão, áreas geográficas e culturais muito antigas e de onde irradiou muita da cultura do mundo.

O professor orientou o resto da sua conferência às referências do Islão, brilhante até à conquista de Constantinopla mas enredado e parado a partir daí, fechado no seu mistério e fascínio. Quando Napoleão fez a campanha militar no Egito, ficou encantado com a cultura de 40 séculos das pirâmides. Em romance recente, o já falecido Paulo Varela Gomes (Passos Perdidos, 2016, Tinta-da-China) descreve Betsy, amiga de Napoleão, a falar da descoberta dessa cultura. No mundo da filosofia e da literatura, a admiração pela cultura islâmica seguiria com Chateubriand, Flaubert, Eça de Queirós, T. E. Lawrence.

Hoje, o oriente muçulmano quer refazer a história, recuperar o seu lugar, e sem contemplações. O ocidente tem de ter uma particular atenção, tem de olhar as outras culturas com prudência. Mas não deve seguir a tendência masoquista que se está a verificar em França, onde, num festival sob o signo de Petrarca, os intelectuais daquele país pedem desculpa por antigos ataques e violência. A humilhação não serve para nada. A humanidade inteira é pequena para que hajam culturas que se excluam. A Europa precisa de recuperar uma função mediadora.

No final, perguntou uma assistente à conferência: e qual o papel da Rússia?

[som de Eduardo Lourenço]

26.9.16

Noticiários de televisão segundo António Barreto

"É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. […] Os alinhamentos são idênticos de canal para canal. Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. […] Os diretos excitantes, sem matéria de excitação, são a joia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um direto. […] Jornalistas em direto gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o direto, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio. […] A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial" (António Barreto, no Diário de Notícias de ontem).

25.9.16

O Rio, de Jez Butterworth


Como se vê pelo cenário, a história parece decorrer em meio rural junto a um rio com falésias. A cabana pertence ao homem, que tinha convidado uma mulher, talvez num fim de semana ou feriado. Há uma mesa central, um fogão e alguns utensílios de cozinha ao fundo, incluindo copos e garrafas, a que se junta um pequeno móvel com livros e um sofá à direita. Perto da porta, utensílios de pesca; por cima da porta, um quadro com um peixe colorido.

Ele não lhe diz que outras mulheres estiveram ali com ele, mas conta a história do tio a que a casa pertencera e que levara para lá namoradas, enquanto a mulher descobre um vestido escarlate, que teria pertencido a uma anterior namorada dele. O homem encoraja-a a ir com ele à pesca, mas ela está mais interessada no pôr-do-sol.

O homem é um pescador com um discurso filosófico, ao falar da truta marisca que pode ser pescada em grande quantidade numa noite sem luar. Incita-a a ler uma poesia para a convencer a ir com ele, pois não está convencida do êxito da saída. Ela acaba por aceitar mas perde-se no caminho, com ele a regressar ofegante e em pânico, e a telefonar para a polícia. Logo depois, ela assume à porta, trazendo uma grande truta mariscada que pescou com a ajuda de pescador furtivo. Aqui, estabelece-se uma distinção entre legalidade e ilegalidade. A mulher acabou por confessar ser especialista na pesca de trutas, o que levanta dúvidas e o irrita.

Segue-se a preparação da truta pelo pescador, depois da namorada ter refletido na injustiça do mundo – até momentos antes, a truta vivia feliz no rio, agora jazia ali para ser digerida. O homem tira as tripas do peixe, abre a água da torneira, descasca batatas e cenouras, põe azeite e leva o prato ao forno, com uma grande perícia do ator (Rúben Gomes) na tarefa. No ar, começa a circular um leve cheiro a peixe assado. Ele podia acrescentar cebola mas o encenador não deve ter querido correr riscos de os odores da cebola se espalharem e criarem problemas ao ator.

A substituição de uma atriz por outras duas atrizes convida o espectador a pensar na linha de repetição das cenas do pescador com mulheres diferentes, uma espécie de ritual onde as memórias antigas se reproduzem nas palavras do homem que recupera e mistura. O passado torna-se diferente como o fluir do rio. Nunca se banha nas mesmas águas do rio do mesmo modo que há ciclos que se repetem na vida. Talvez a peça seja sobre a solidão em que o homem diz que ama a mulher e está à espera que esta responda da mesma maneira. Mas a múltipla representação feminina leva-nos a características diferentes – mais romântica, mais distante, mais ingénua.

[Inspirei-me na crítica do jornal The Guardian, de 27 de outubro de 2012]

O Rio, de Jez Butterworth (nascido em 1969), com tradução de Joana Frazão, atores Rúben Gomes, Inês Pereira, Vânia Rodrigues e Maria Jorge, cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, luz de Pedro Domingos, assistência de Maria Jorge, coordenação técnica de João Chicó e encenação de Jorge Silva Melo. Fotografia de Jorge Gonçalves. Peça dos Artistas Unidos.

22.9.16

Maria Pedro Olaio e Sofia de Medeiros expõem em Coimbra

"A junção de dois versos de poemas separados de Sophia de Mello Breyner Andresen dá o mote para a exposição que o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha acolhe, em Coimbra, aquando da comemoração dos 500 anos da beatificação daquela que nasceu princesa de Aragão e foi a sexta rainha de Portugal, por via matrimonial com o rei D. Dinis, a Rainha Santa Isabel. “Com teus gestos me vestiste, na nudez da minha vida” não só reúne trabalhos paradigmáticos dos vastos percursos artísticos de Maria Pedro Olaio e de Sofia de Medeiros como também põe a nu, à luz do agora visível, histórias, significados e gestos materializados em obras mais recentes" (texto e cartaz de apresentação enviados pela organização).


21.9.16

Ricardo Reis na Barraca

José Saramago publicou o livro O Ano da Morte de Ricardo Reis em 1984, tendo como protagonista Ricardo Reis, um heterónimo de Fernando Pessoa. Médico regressado a Lisboa, vindo do Brasil depois de 16 anos de ausência, expatriado por ser monárquico, a personagem observa o desenrolar de um ano trágico, o do começo da guerra civil espanhola e consequente implantação do fascismo em Espanha enquanto continuava a ditadura de Salazar desde 1928, a expansão nazista na Alemanha e a ascensão de Mussolini na Itália.

Saramago em entrevista a Adelino Gomes diria: "Conheci Ricardo Reis por altura dos meus 17 ou 18 anos. Na Escola Industrial de Afonso Domingues, que frequentava, havia uma biblioteca, e foi aí que se me deparou um exemplar da revista Athena em que apareciam umas quantas odes assinadas com aquele nome. Dizer que fiquei deslumbrado é pouco, tinha diante de mim a beleza em estado puro. Nessa altura, pensei que Ricardo Reis era uma pessoa real, não sabia nada dos heterónimos e pouquíssimo do próprio Pessoa".

Saramago, com 13 anos em 1936, baseou-se em memórias para escrever o livro sobre a solidão e um tempo triste. As relações estabelecidas e que a peça segue são frias, quase desumanas, um interior falso. A criada da pensão, grávida de Ricardo Reis, diria que se ele não perfilhasse a criança ela não se importaria. Ricardo Reis, interrogado pela polícia política, desejosa de saber porque regressara do Brasil depois de tanto fora, queixou-se das perguntas íntimas que lhe fizeram. A filha do agrário de Coimbra tinha uma paralisia no braço porque ficara triste.

Agora, em 2016, Hélder Costa adaptou a obra para o teatro A Barraca, com a interpretação de Adérito Lopes (Ricardo Reis) e Ruben Garcia (Fernando Pessoa). Hélder Costa recorda a coragem do escritor, pelo seu serviço à arte e à cidadania. Destaco a interpretação de Ruben Garcia no desempenho do espetro de Pessoa, com a sua maneira de andar e o riso e modo de falar estridente e assustador.


20.9.16

Orações de Sapiência



Ao final da tarde de hoje, foi lançado o livro organizado e com introdução de José Miguel Sardica Orações de Sapiência, Faculdade de Ciências Humanas 2001-2016, contendo 17 textos apresentados nesse período. Para o organizador, o livro ilustra o passado, presente e a "identidade poliédrica" da Faculdade de Ciências Humanas. Para José Miguel Sardica ainda, a "sua publicação é um ato de celebração e de efeméride. Mas é também um gesto de afirmação científica, de serviço à universidade e à sociedade, e de promoção da cidadania".

Os textos pertencem a Alexandra Lopes, Carlos Morujão, Cassiano Maria Reimão, Fernando Ilharco, Francisco Branco, Helena Rebelo Pinto, Isabel Casanova, Isabel Ferin Cunha, Isabel Guerra, Jorge Fazenda Lourenço, José Miguel Sardica, Luísa Leal de Faria, Manuel Braga da Cruz, Manuel Cândido Pimentel, Mário Ferreira Lages, Nelson Costa Ribeiro e Rogério Santos.

No vídeo, a professora Laura Pires numa parcela da sua apresentação da obra.

19.9.16

Música no Coração

Charmian Anne Farnon, mais conhecida como Charmian Carr, a atriz que representou o papel de filha mais velha e rebelde dos von Trapp no filme Música no Coração morreu anteontem em Los Angeles aos 73 anos. Charmion Farnon sofria de uma forma rara de demência.

Adolescente na altura da exibição do filme, em 1965 ou 1966, eu pedi uma fotografia dela à produtora do filme. Então, Charmion Farnon tinha 22 anos. Lembro-me de ter visto o filme no cinema Coliseu (Porto). A ilusão da imagem cinematográfica, a alegria de uma família que contratara uma preceptora e os concertos vocais dados esmagavam qualquer compreensão sobre aqueles indivíduos estranhos que se moviam à noite em carros negros e vistosos. O nazismo ainda não era entendido pelo espectador e tudo não passaria de um pequeno jogo entre bons e maus, com aqueles a triunfarem mesmo fugindo a pé por montanhas geladas. A análise política não existia simplesmente.

Leio na wikipédia que Música no Coração, em termos comerciais, se tornou à época, o mais rentável, substituindo E Tudo o Vento Levou. Foi selecionado em 1998 pelo American Film Institute (AFI) como o 55º melhor filme norte-americano de todos os tempos e o quinto melhor filme musical da história.

18.9.16

Ontem, fui ao concerto dos Beatles

O filme The Beatles: Eight Days a Week - The Touring Years (2016), de Ron Howard, recolhe elementos sobre 250 concertos da banda de Liverpool entre 1963 e 1966, como músicas, entrevistas e histórias dos quatro músicos. Outro dado: de 1962 a 1966, atuaram 815 vezes em quinze países e 90 cidades.

Admirador da banda, embora com um gosto adormecido nos últimos anos, pude compreender as histórias, os sucessos e as dificuldades, o lado criativo dos músicos nascidos na primeira metade da década de 1940 em meios de classe trabalhadora inglesa, a sofrer os efeitos da II Guerra Mundial. A exaustão da vida dos músicos é a origem da canção Help - ensaios de manhã no estúdio, sessões fotográficas ao começo da tarde, concerto à tarde na televisão e atuação num clube noturno à noite ou 25 concertos em 30 dias na primeira visita aos Estados Unidos ou ainda o boicote naquele país quando Lennon declarou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Isto provocou medo na banda e um pedido de desculpas do músico.

Num dos depoimentos, um historiador da música compara, em termos de melodias, a criatividade dos Beatles, nomeadamente a dupla Lennon/McCartney, a Schubert e a Mozart. Dos Beatles, teriam ficado mais de 400 canções. Noutro depoimento, reflete-se a viragem dos primeiros álbuns com letras viradas para "eu amo-te, tu amas-me" para líricas mais sociológicas, fruto do amadurecimento dos músicos. Mas sempre uma grande energia e uma atualização, que se pode ver nos estilos de vestuário e códigos de conduta e em alguma afirmação política, como quando decidiram tocar num estádio no sul dos Estados Unidos para negros e brancos, sem segregação, numa altura em que os negros lutavam pelos seus direitos cívicos.

No final, após a ficha técnica, em cópia restaurada, viu-se um magnífico concerto em estádio de Nova Iorque em 1965. Como a banda nunca veio a Portugal, só agora nós temos possibilidades de os ver ao vivo. No concerto, que reuniu quase 57 mil espectadores, a banda saiu de automóvel de dentro do estádio para fugir ao contacto com os fãs, que gritavam, choravam e desmaiavam. A polícia nunca vira uma multidão tão entusiasmada e descontrolada. Os músicos não conseguiam ouvir o que tocavam, dado o ruído em volta. Apenas os automatismos de muitas horas em conjunto permitiram que a banda tocasse afinada.


Nota: amanhã, 19 de setembro de 2016, na sessão das 21:30 do cinema Monumental (Lisboa), Luís Pinheiro de Almeida e Teresa Lage, autores do livro Beatles em Portugal, falarão sobre o filme.

16.9.16

História e memória em Fernando Rosas

Fernando Rosas, professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fundador e até há pouco tempo diretor do Instituto de História Contemporânea proferia a sua última lição em 26 de abril de 2016, texto agora editado pela Tinta da China. Além desta lição, o livro traz textos de apresentação do percurso intelectual (e político) de Fernando Rosas - Helena Trindade Lopes, Luís Trindade e Francisco Louça. A parte final do livro tem uma longa entrevista conduzida por Luís Trindade ao autor de livros como Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (2012) e A Transição Falhada. O Marcelismo e o Fim do Estado Novo (1968-1974) (2004)(coordenado por ele e por Pedro Aires de Oliveira).

A última aula teve o título exato de História, (Des)memória e Hegemonia. O autor situa o começo da desinquietação que leva ao assunto nas duas últimas décadas do século XX: a revisão das representações do passado, associada à emergência de uma nova ordem conservadora - o neoliberalismo. Há uma "gigantesca releitura do mundo" do passado, caso da desculpabilização da ditadura de Salazar (p. 54) ou da manipulação da história com fins mediáticos como o concurso de Grandes Portugueses em 2006-2007 (p. 72), que levam habitualmente a uma obsessão memorial (p. 58) e a uma visão desdramatizada do passado (p. 73), a qual se distingue da nova investigação histórica e abertura de novos arquivos e documentação, além da recolha de fontes orais (p. 50). Melhor dizendo, segundo Fernando Rosas: História académica e usos públicos da memória cruzam-se mas não se devem confundir (p. 56). Ou como ele chama ao longo do texto - a memória-prótese por oposição ao revisionismo (p. 59). No autor, em pano de fundo, a interpretação do período revolucionário português (1974-1975) e a democracia institucionalizada em 1976 - os seus autores, os seus pontos de vista e a apropriação hegemónica dos vencedores.

A entrevista dada a Luís Trindade reflete muito o pensamento do autor, dando-o a conhecer melhor para quem não priva com ele. Primeiro o percurso político: do Partido Comunista ao MRPP e, depois, ao Bloco de Esquerda. Depois, as filiações culturais de um licenciado em Direito que reverte toda a sua disponibilidade intelectual para a História: Manuel Villaverde Cabral, Manuel de Lucena e Vasco Pulido Valente em livros publicados na passagem da década de 1970 para a seguinte. Dos três, há um pequeno pormenor, mas que acho delicioso, sobre Vasco Pulido Valente e a "malvadez" que o caracteriza e que desconstrói a visão mítica republicana maçónica da Primeira República, porque a "rapaziada" (os dirigentes) do partido Republicano aproveitou-se do que outros fizeram para derrubar a monarquia (p. 96). E há ainda espaço para reconhecer a importância de um historiador como Joel Serrão, que morreu dez anos antes de morrer e a quem o país ainda não prestou a devida homenagem (p. 116). Os outros centros da entrevista são a revista História, os cursos de mestrados que abriram portas à investigação das estruturas ligadas ao Estado Novo (PIDE, Mocidade Portuguesa) e a abertura de arquivos como a Torre do Tombo (caso dos arquivos Salazar e PIDE), esperando ele que outros arquivos se abram (Igreja Católica, Partido Comunista).


14.9.16

Cartas da Guerra e as minhas memórias

Escrevi aqui, a 16 de dezembro de 2005, sobre o livro D'Este Viver Aqui Neste Papel Descriptivo de António Lobo Antunes. De entre outras linhas, escrevi que se trata de "um livro de amor que decorre com a guerra colonial como pano de fundo. Os aerogramas (ou cartas) que o alferes miliciano António Lobo Antunes mandava para a mulher Maria José Fonseca Costa Lobo Antunes são a expressão do amor à distância e relata o dia a dia da vida de um militar destacado em Angola durante a guerra, no caso dele entre 1971 e 1973. O livro lê-se como um romance pleno de acção, mesmo que muitas das cartas contenham versões minimais de outras".

Depois, destaquei os temas principais das cartas: "a saudade da mulher (e da filha que vai nascer aqui em Lisboa quando ele está lá longe, em Gago Coutinho - o nome de então de uma vila angolana perto da fronteira com a Zâmbia). Daí que as cartas comecem sempre com «minha jóia querida» e acabem com «gosto tudo de ti». Outra linha constante é a referência à sua necessidade de escrever, ele que debutava e seria bastante mais tarde reconhecido como grande escritor. Escrevia ele a 5 de Abril de 1971 (p. 117): «Tenho continuado a história, agora a caminho da página número 70, vamos a ver se consigo que fique boa». A 21 de Maio do mesmo ano (p. 171): «Entretanto lá vou empurrando a história para a frente». No dia 8 de Julho (p. 232) escrevia: «Acabada a primeira parte, eis-me a trotar na segunda»".

O atraso de correspondência era outra constante da vida diária do alferes médico Lobo Antunes, nascido em 1942: "Desde 4ª feira passada (hoje é 3ª) que não recebo notícias tuas e que nada sei a teu respeito" (6 de Abril de 1971, p. 118). Muitas vezes, considera que o amor entre ele e a mulher está a chegar ao fim, pois ela não lhe responde. Mas das suas cartas percebe-se que ela se queixava do mesmo. Cada aerograma demorava muitos dias, devido aos circuitos complexos de correio no interior de Angola. Hoje, tais lamentações não seriam possíveis, graças ao telemóvel e, em especial, a internet [há poucas semanas, uma reportagem de televisão mostrava os soldados destacados em missão internacional no Afeganistão com uso de internet e envio de imagens fotográficas. O tempo de demora reduziu-se a instantes]. O dia a dia sem motivos novos levava a um remoer constante das mesmas ideias. Mas o autor não assumia que nelas pensava todos os dias: «Há muito que não falo da criança [a mulher ficara grávida quando ele embarcou para Angola], mas tenho pensado muito nela» (26 de Abril de 1971, p. 140). Lobo Antunes abordara a situação no dia anterior. Depois, é o seu conselho quanto ao nome da criança a nascer; querendo uma rapariga, propõe o nome de Maria José, o que virá a acontecer".

Um tema marginal nas cartas à mulher, mas que retoma com alguma regularidade, é o da compra de bebidas brancas a preços baixos: "A propósito de oficiais, cada um tem direito por mês a 3 garrafas, duas de uísque e uma de conhaque, de marcas estupendas, a preços de cerca de 100$00. [...] Embora não goste de nada disso (e tenho pena) ficamos cheios de alcoóis para os visitantes do nosso quimbo" (carta de 29 de Março de 1971, p. 109. Quimbo em umbundo, a língua da região, significa casa). A 20 de Janeiro de 1972 (p. 338), dá conta de uma alteração: "já não vendem mais garrafas aos senhores oficiais, por aqueles preços convidativos". E, por mais de uma vez, conta que militares de visita a Portugal serão transportadores de algumas dessas garrafas.

Retenho ainda da leitura do livro o conhecimento que ele adquiriu com o capitão Ernesto Melo Antunes, comandante de uma das companhias do seu batalhão (certamente aí colocado depois de, em 1969, ter sido o único oficial das Forças Armadas portuguesas a fazer parte de uma lista de oposição ao regime, ele que seria um dos oficiais do 25 de Abril de 1974 e que assumiu uma posição de liderança, com o Documento dos Nove, uma posição moderada após a radicalização à esquerda do regime em 1975 e 1975. Melo Antunes, homem culto, emprestava livros e revistas como o Nouvel Observateur e jogou xadrez com Lobo Antunes, ensinando-lhe várias entradas, como o livro indica. Por outro lado, a tomada de consciência política (apesar de, numa primeira fase, parecer favorável à situação, vai-se distanciando da posição oficial).


Retomo este texto que resultou da minha leitura de D'Este Viver Aqui Neste Papel Descriptivo há já quase 11 anos, a propósito do filme Cartas da Guerra, do cineasta Ivo Ferreira, filme quase documentário assente nesse livro de António Lobo Antunes de aerogramas enviados à mulher. Filme a preto e branco, sempre com imagem magnífica de João Ribeiro, com leitura de cartas pelos narradores e intérpretes Miguel Nunes e Margarida Vila-Nova. O filme complementa visualmente a narrativa escrita, mostrando a paisagem da Lunda Sul, com o enorme rio Chiumbe a surgir de quando em quando (julgo ser ele, pois ouve-se o seu nome, embora associado a uma pequena vila, esta bastante a norte do local onde Lobo Antunes esteve, perto da então designada Gago Coutinho). Estão no filme a prisão em que se tornou o aquartelamento da companhia liderada por Melo Antunes, com trincheiras cavadas, por se temer o assalto dos guerrilheiros do MPLA, as emboscadas e os mortos e feridos (Lobo Antunes operou sem anestesia), a PIDE e os Flechas, a apreensão de propaganda dos guerrilheiros, então terroristas, o assassínio de terroristas apanhados, as campanhas de vacinação, as crenças e festas dos locais, a alimentação e as bebidas e até um show musical com artistas brancas em Gago Coutinho e que traçam uma história quase impossível de obter da leitura das cartas. Até formigas com asas o filme identifica, mais as chuvas violentas a que se segue sempre uma claridade deslumbrante naquelas terras. O que revela o conhecimento e a qualidade do argumento de Ivo Ferreira e Edgar Medina.

No filme, a personagem que representa Melo Antunes diz: "esta guerra não tem justificação". Ele e o alferes médico jogam mais uma partida de xadrez e Lobo Antunes está a acabar um capítulo de um livro, enquanto pensa na mulher e na filha recém-nascida. No filme, também se ouvem os sons da rádio: um discurso de Marcelo Caetano nas Conversas em Família e um relato de futebol Benfica-Ajax. E sempre a longa e inesquecível planície da Lunda Sul.

De repente, enquanto via o filme, pensei no Teixeira, um jovem afável de Guimarães, e seis outros companheiros vítimas de uma emboscada no dia 1 de maio de 1972 na estrada que ligava Moxico (então Luso) a Dala, onde a minha companhia estava [imagens em baixo]. Este ano, no almoço de antigos combatentes em Angola, alguém me disse que eu estava de serviço nesse dia. Devo ter tido uma amnesia parcial, pois não me lembro desse serviço. Recordo apenas a agonia dos jovens militares na enfermaria da companhia, por já nada haver a fazer. E da descrição emocionada do Muga, um dos condutores de uma Berliet, ele que escapara com mais outros companheiros. Creio que nunca pensei muito bem nisto em 44 anos. Talvez tenha acabado o luto hoje.


13.9.16

A Primeira Reportagem Radiofónica

A revista Nova Antena (1968-1970) era propriedade da RTP, Rádio Clube Português e Rádio Renascença, com informação sobre rádio, televisão e cinema e programação daquelas três estações. Sucedia à revista Antena (1965-1968), apenas propriedade de Rádio Clube Português e veiculando somente informação desta estação de rádio. Na Nova Antena, havia um redator de cada um dos meios de comunicação que tratava de temas da sua estação. Semanal, o sucesso da nova revista não terá sido grande, pois o primeiro diretor, José Maria de Almeida, foi substituído por João Coito no número 32, em junho de 1969. A partir daí, a revista perdeu algum interesse, com um grafismo de menor qualidade e dando mais relevo às vedetas de cinema internacionais. João Coito, nos seus editoriais, revelou-se um grande defensor da política de Marcelo Caetano.

Uma das raras bandas desenhadas que aparecem a ilustrar a publicação é a que se segue, no número 13, de 24 de janeiro de 1969, assinada por Lux e Fédor, A Primeira Reportagem Radiofónica. Ela conta o desempenho de David Sarnoff, que tornaria possível a transmissão massificada da rádio. A própria empresa duvidava do êxito daquele colaborador. A história abaixo presente descreve como ele conseguiu que um combate de boxe, opondo o campeão a um desafiante, fosse ouvido nomeadamente em teatros alugados no dia do encontro para a audição do mesmo. Superados o aluguer de salas e os problemas técnicos de linhas telefónicas, amplificação, altifalantes - e autorizações legais respetivas -, a Sarnoff colocou-se a questão do modelo de transmissão. Hoje, sabe-se transmitir um relato de futebol, hóquei em patins ou basquetebol, ou outra modalidade qualquer. Mas como seria a primeira transmissão?

Os desenhos da banda pertencem a Fédor, pseudónimo de Fernand Vandenwouwer, que desenhou a revista Tintin do começo da década de 1960 até à década seguinte. Ele, após desenhar pequenas histórias, começou a série Naufragés de l'An 3000. Outras histórias, como a que aqui se apresenta, contaram com textos de Lux.


A não esquecer a inscrição. Até 30 de setembro


10.9.16

José Rodrigues

Faleceu hoje este artista plástico. De entre outras atividades, ele foi fundador da cooperativa Árvore e da bienal de Cerveira. No Porto, a sua escultura na ribeira do Douro, conhecida pelo "cubo", provocou celeuma quando instalada. Na imagem, o trabalho escultórico interior feito por José Rodrigues em edifício de telecomunicações (TLP, atual PT, à rua Tenente Valadim, Porto).


6.9.16

Velhos no porto de Santa Cruz


De repente, lembrei-me de Edward Hopper (1882-1967). Mas o Instagram altera cores e linhas de perspetiva. [P. S.]

5.9.16

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (9)


Mais de cem músicos faziam parte das orquestras da Emissora Nacional em 1938. Com emissões experimentais desde 1934, a partir de Barcarena, e emissões oficiais desde agosto de 1935, já na rua do Quelhas, 2, em Lisboa, a Emissora Nacional daria emprego a quase todos os músicos do país, dada a inexistência de uma orquestra sinfónica nacional desde a I República. António Joyce, que reerguera das cinzas o orfeão de Coimbra, fora generoso no levantar orquestras dentro da novel estação. Ele saiu pouco depois de entrar na Emissora Nacional. Henrique Galvão sucedeu-lhe, atribuindo-se-lhe uma frase sibilina sobre o seu antecessor: as notas musicais zangaram-se com as notas do banco. Galvão reduziu bastante a dimensão das orquestras, mas ainda havia cem músicos integrados no quadro da estação.

Havia oito agrupamentos (entre parêntesis, coloco o nome do maestro): grande orquestra sinfónica (Pedro de Freitas Branco), orquestra genérica (Pedro Blanc), popular (Wenceslau Pinto), câmara (Frederico de Freitas), salão (Wenceslau Pinto), sexteto A e B (René Bohet), quarteto (Luís Barbosa) e trio (Silva Pereira). Só a grande orquestra sinfónica tinha 85 elementos, apresentados com instrumentos e nomes no texto de Álvaro de Andrade (Diário Popular, 29 de setembro de 1970): primeiros e segundos violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, corne inglês, clarinetes, clarinetes baixo, saxofone, fagotes, trompas, trompetes, trombones e cuba, tímpanos, percussão, harpa e teclado.

O maestro Pedro Freitas Branco atingiria reconhecimento nacional e internacional durante as décadas de 1930 a 1950. O jornalista elencaria algumas das obras executadas pelo maestro, a quem dedicaria textos posteriores.

A Emissora Nacional dotava-se, deste modo, de instrumentos para criar gosto. António Ferro, que sucedeu ao intempestivo Henrique Galvão em 1941, dotou a rádio oficial (como se dizia à época) de novos instrumentos, como o Gabinete de Estudos Musicais e o Centro de Preparação de Artistas da Rádio, entre 1947 e 1948. De forma lenta - quase harmoniosa em termos de hoje - preparara-se a mudança de gosto: da música clássica para a música ligeira orquestrada. No final da década de 1960, um arguto jornalista, João Paulo Guerra, chamaria a esta produção de música ligeira de nacional-cançonetismo, matando o sonho de Ferro de elevar esteticamente a música ouvida pela população em geral e criar um novo gosto.

3.9.16

Adília Lopes ou a Zé vai à Sé (Z/S)


Ontem à tardinha, foi apresentado o livro de Adília Lopes, Z/S, por Maria Filomena Molder e com leitura de poemas por Ângela Correia, na livraria Leituria, à rua D. Estefânia (Lisboa).
O novo livro, editado com a chancela das edições Averno, tem poemas e pequenas histórias de Adília Lopes, nome literário de Maria José Oliveira, e aposta numa troca de letras em que o seu nome aparece com elemento central. Zèzinha, Zezinha (sem acento grave) ou apenas Zé pode jogar com Sé: a Zé vai à Sé (Z/S). Uma homenagem explícita a Roland Barthes, como foi acentuado na apresentação.

Por vezes, os textos são de uma simplicidade desarmante ("Temos a cara / que nos deixam ter", p. 65). Outras vezes, jogam com as palavras e os sentidos, mas de uma grande sensibilidade ("Sabonetes e sorvetes / têm as mesmas cores / os sabores contrários", p. 85) . Ou desconcertantes ("Muitas pessoas o melhor que andaram a fazer neste mundo foi cocó", p. 55). Ou remetem para outras histórias, quiçá do vocabulário político recorrente ("Passei a vida a correr riscos e a fazer riscos. Não havia plano B", p. 50). E ainda o recurso a histórias que envolviam a mãe, bióloga, que dizia que "o que mata baratas mata pessoas": "As pessoas estúpidas é que têm a mania que são feitas de massa especial. Mais vale baratas que DDT. Faz menos cancros" (p. 24).

Com frequência, brejeira (não se diz pornográfica), a sua poesia e prosa lembram o surrealismo. Ou um novo surrealismo carregado de simbolismo. É ainda uma poetisa que se pode considerar com sabedoria local - diversos textos situam histórias em Arroios, a freguesia lisboeta onde ela mora e convive com gente letrada mas também com sem-abrigo. Como no poema sobre a planta que esmaga na sua mão e diz ser lavanda. Alfazema, corrige a sem-abrigo Dona Elisabete, habitante errante do jardim junto à igreja de Arroios.

Capa (e marcador) de Luís Henriques e arranjo gráfico de Pedro Santos.

2.9.16

O que se passa no Museu Nacional de Arte Antiga?

António Filipe Pimentel, diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, disse hoje que pode ocorrer uma calamidade no museu muito proximamente: "quando acontecer, abre os telejornais" e "aquilo vai partir e vai partir em muito pouco tempo". O museu tem 82 salas abertas e 64 funcionários. A nova galeria de pintura e escultura portuguesa, inaugurada há pouco mais de um mês por Marcelo Rebelo de Sousa, só não fechou no dia seguinte pelo forte impacto político que teria.

O responsável do museu não especificou o problema mas o local onde o disse - na escola de quadros do CDS-PP, a decorrer até domingo - tem significado político considerável. O governo tem na mão um projeto-lei a aplicar ao museu, mas não parece querer avançar, ao passo que ele viu com muito gosto o programa do último governo PSD-CDS sobre autonomia e ampliação do museu.

Atualização: entretanto, o ministro Luís Castro Mendes, que se encontrou a semana passada com o diretor do museu em reunião normal de trabalho, achou estranhas as declarações deste e disse estar a avançar um processo que envolve diversas instituições culturais do país, mas não as precisou.

1.9.16

O fim do gratuito Metro

A partir da próxima segunda-feira, 5 de setembro, o jornal gratuito Metro deixa de ser publicado. Edição portuguesa trazida em dezembro de 2004 pela editora sueca Metro Internacional e grupo Media Capital, foi comprada pela Cofina em 2009. A edição do Porto existe desde 2005. Agora, a Cofina indica as dificuldades económicas como a única razão para o seu desaparecimento.

É interessante notar que os otimistas de 2004 e anos seguintes diziam que os jornais gratuitos, incluindo o Destak e outros jornais ligados a grupos de media mas efémeros na sua existência, significavam que os portugueses estavam a ler mais jornais, o que os aproximaria da média europeia. Tal representaria também uma evolução do mercado face aos jornais mais clássicos e de venda em banca. A realidade sombria da última década (menos títulos sérios, mais informação sensacionalista) desemboca agora no desaparecimento do mais emblemático título gratuito.

Não sei se a confiança (maior ou menor) nos media, como a notícia que reportei há pouco, melhora (ou diminui) com este tipo de notícias. Sei que menos títulos representam menos possibilidades de alternativas informativas, com as possíveis cargas de manipulação e distorção da opinião pública.

Saída de Luís Marinho da RTP

A Lusa divulgou uma carta de despedida de Luís Marinho da RTP, empresa onde trabalhou durante 15 anos. Entre os cargos desempenhados, ele foi administrador e diretor-geral de conteúdos, director de estratégia de grelha e director de informação da RTP, exercendo recentemente o lugar de responsável pelo gabinete de projectos especiais.

Marinho critica em especial a governação criada pelo anterior ministro Poiares Maduro, com o surgimento do Conselho Geral Independente (CGI), órgão de supervisão do Conselho de Administração da RTP, e responsável pela demissão do anterior Conselho de Administração, liderado por Alberto da Ponte. Na carta, escreve que, "do ponto de vista organizativo, a RTP é hoje uma empresa dos anos 80 do século passado, com direções para todos os gostos, a que se juntam ainda mais diretores disfarçados de consultores".

Nos dias mais recentes, rebentara uma polémica com a admissão como diretor de André Macedo, até agora diretor do Diário de Notícias. Macedo fora um aceso crítico da RTP, considerando em textos que já não se justificava a existência de um serviço público de rádio e de televisão.

31.8.16

Sobre a Aginter Presse

João Paulo Guerra cobriu, para Rádio Clube Português, o primeiro de maio de 1964. Na praça dos Restauradores (Lisboa), a polícia carregou nos manifestantes e um esquadrão da Legião Portuguesa (Centuriões) apareceu e disparou, matando um dos manifestantes, David de Almeida Reis. A polícia apoderou-se do gravador do jornalista, impossibilitado de dar a ocorrência (se a censura permitisse a transmissão). Já depois de 1974, a 22 de maio, ao serviço da Emissora Nacional, João Paulo Guerra reportou uma operação militar (marinha) na rua das Praças, 13 (Lisboa), destinada a recolher documentação de uma agência noticiosa (Aginter Presse), fachada de um grupo terrorista internacional.

O jornalista juntou estes dois factos que viu e procurou noticiar e criou o centro do livro Romance de uma Conspiração. Portugal no Centro de uma Intriga Internacional (2010, Oficina do Livro). A personagem principal é Pedro Costa, um adolescente que passeava com o pai na praça dos Restauradores, no momento exato dos acontecimentos de 1964. Na ficção, o escritor acrescenta um segundo morto, o pai de Pedro Costa, tipógrafo em O Século, expulso anteriormente do ensino estatal por oposicionista. Pedro Costa seguiria para a marinha e como segundo tenente comandou o assalto às instalações da Aginter Presse.


As outras personagens principais seriam a mãe, arquivista de segunda classe na Emissora Nacional que recolhia e classificava recortes que serviriam o programa A Voz do Ocidente, programa  diário da Emissora Nacional das 23:00 à 1:00, e Jacques Mercier, o franciu com quem a mãe iria viver depois de se separar do marido, no final do livro desvendado como Cleubert Garin, aliás Ralph, aliás Brug, aliás Morgan, o C11 no código de operações da Aginter Presse ou OT - Ordre et Tradition ou OACI – Organization d’Action Contre le Communisme International. A Aginter Presse era a fornecedora de informação do programa A Voz do Ocidente. O desempenho de Pedro Costa, desde o dia em que o seu pai foi morto até ao encontro com o "padrasto" Jacques Mercier, aliás Cleubert Garin, foi procurar saber mais dessa fictícia agência noticiosa. No seu currículo real, a OACI foi responsável pelo assassinato de Eduardo Mondlane e por uma tentativa de golpe de Estado que deporia Mobutu. Este, como represália, fechou a embaixada portuguesa em Kinshasa, capital do Zaire (atual República Democrática do Congo). Em termos de informação e contrapropaganda, Portugal ficaria privado de um espaço vital para a defesa de Angola, pelo que a Aginter Presse foi recrutada para esses serviços, pagos por um ministério português.

Há uma outra personagem, Margarida, filha - dentro da ficção - do coronel Matias Brandão, militar muito ativo ao serviço do ELP, força de extrema-direita após abril de 1974, e namorada durante algum tempo de Pedro Costa. Outras personagens são verdadeiras, como o comandante Abrantes Serra, que chefiou o forte de Caxias no período imediato a abril de 1974. O major Menino Vargas, responsável pelo serviço de análise documental no reduto sul do forte, aparece no romance como Pedro Costa, que começaria a ler e a classificar o arquivo da Aginter Presse. O leitor atento ao arquivo da Aginter Presse foi, na realidade, António Graça, autor de dois relatórios sobre a agência noticiosa fachada de atividades terroristas, e que María José Tíscar aproveitou para escrever o livro A Contra-Revolução no 25 de Abril. Os “Relatórios António Graça” Sobre o ELP e a Aginter Presse ((2014, Edições Colibri). No romance, a Aginter Presse tornou-se a obsessão do jovem militar, entretanto passado à disponibilidade, enveredando por outra atividade, mas sempre na busca da verdade sobre a morte do pai e das ligações perigosas com grupos extremistas como a OACI.

Não posso etiquetar o livro como romance histórico, mas ele é um relato próximo da realidade, com personagens de ficção. Onde espiões e bandidos se cruzam em momentos cruciais da história portuguesa. João Paulo Guerra não esconde as suas simpatias políticas, com relevo para as forças revolucionárias que emergiram em abril de 1974. Apesar disso, a sua personagem principal, um homem, reflete as contradições da revolução, com críticas a uma deriva ao longo do período designado por PREC. Se se quiser, à oposição entre o autoritarismo anterior e a anarquia posterior. Pedro Costa é um homem com dúvidas (continuar ou não com Margarida, permanecer ou não com Telma) mas com princípios que herdou do pai - a literatura, a cultura, a independência. Já dito acima, o universo profissional retratado no livro, para além das personagens militares, necessárias para o enquadramento, é a rádio (a mãe) e os jornais (o pai), as grandes profissões do autor deste livro.



29.8.16

A Rádio Renascença

Até meados da década de 1960, dos programas mais escutados de Rádio Renascença destacavam-se Novos Emissores em Marcha, com discos pedidos por correspondência, Enquanto For Bom-Dia, Auditório, Quando o Telefone Toca e Diário do Ar. A programação parecia obedecer cada vez mais a uma grelha comercial. O fundador da estação, Monsenhor Lopes da Cruz, faleceu em 1969. Sucedeu-lhe monsenhor Sezinando Rosa, acompanhado por dr. Tomás Andrade Rocha, padre Américo Brás da Costa e Rogério Leal, com uma nova política de contratação: indivíduos com experiência profissional em rádio, casos do diretor comercial (Albérico Fernandes), da informação (Carlos Cruz) e de programas (padre António Rêgo). A partir de março de 1970, a Renascença passou a emitir 24 horas por dia.

No âmbito das produções independentes, combinando informação e cultura, com algum empenho político-social, surgiram os programas 23ª Hora (1959-1974), Página Um (1968-1975), Tempo Zip (1970-1972) e Limite (1973-1974). Novas áreas temáticas foram o desporto motorizado (1973) e programação religiosa (1968). Dos programas de informação mais escutados, o noticiário 19.Zero-Zero era também vigiado pela censura, pois o recurso a reportagens em direto permitia informação que não passava previamente pela censura. As suspensões de Página Um e Tempo Zip em setembro de 1972 e a liberdade nos noticiários levaram à nomeação de uma comissão de censura nos dias antes de 25 de abril de 1974. A autora do livro, em vez de censura interna, prefere chamar cultura de cautelosa gestão de informação.


O deflagrar do conflito na Renascença a seguir a 25 de abril de 1974 relaciona-se com a proibição de cobertura jornalística da chegada de exilados políticos (Soares, Cunhal). Outra causa foi a leitura de um telegrama de agência noticiosa comunista por Luís Paixão Martins. A greve começou a 30 de abril de 1974. O diretor comercial Albérico Fernandes procurou assegurar a transmissão dos noticiários, mas não conseguiu. A greve acabou à meia-noite de 31 de março e os grevistas impuseram o afastamento do conselho de gerência, a readmissão dos locutores Rui Paulo da Cruz e Rui Pedro e o fim da suspensão dos locutores Adelino Gomes e João Paulo Guerra, decidida em 1972. Um comentário ao ataque palestiniano sobre atletas israelitas na aldeia olímpica de Munique motivara a suspensão dos programas a que os últimos dois estavam ligados. No começo de luta, os trabalhadores eram apolitizados e as suas reivindicações eram laborais. Com o decurso da luta, começou a existir um alinhamento partidário e a relação entre trabalhadores e administração alterou-se.

Depois, houve a tomada da redação por trabalhadores do setor radiofónico, designados por ocupantes, a luta pelo controlo de emissores no Porto e em Lisboa, com repercussão no transmissor da Lousã, uma radicalização crescente das partes envolvidas, culminando na destruição à bomba do emissor da Buraca, a 7 de novembro de 1975.

O livro de Paula Borges Santos faz uma análise muito em pormenor e em profundidade do período marcelista (1968-1974) e da revolução (1974-1975). De ler os capítulos sobre a Igreja Católica, a sua condução e as principais questões colocadas a uma igreja que defrontou sucessivamente um regime ditatorial e uma revolução. Neste segundo período, a própria propriedade da Rádio Renascença pela Igreja Católica chegou a estar em causa. O cardeal D. António Ribeiro emerge como a figura central na resolução adequada.

Leitura: Paula Borges Santos (2005). Igreja Católica, Estado e Sociedade 1968-1975. O Caso Rádio Renascença. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 269 páginas. Prémio Fundação Mário Soares 2004

27.8.16

A ecologia no filme Amanhã

Entusiasmei-me com a adesão de Portugal ao euro. Os anos mais recentes têm-me tornado prudente. Entre defensores e detratores do euro, começo a tender para os que veem muitos males na moeda europeia. Por isso, fiquei encantado com a ideia de moedas locais em várias cidades europeias como aparece descrita no filme Amanhã, de Cyril Dion e Mélanie Laurent (2015). Mostram eles que uma moeda local é um complemento da moeda nacional mas visa fazer girar a riqueza pelas múltiplas atividades dentro de uma comunidade, uma cidade por exemplo, e não continuar a existir a fuga do dinheiro para outros países ou paraísos fiscais.

Outras ideias que acolheram a minha simpatia foram as de permacultura, das hortas urbanas e de reciclagem, apresentadas de um modo que eu desconhecia totalmente. De repente, tive o sonho de abalar da cidade grande para uma aldeia, viver junto da natureza e produzir aí.


Outras ideias do filme provocaram-me admiração: os autores do filme obtiveram financiamento para o filme através de campanha lançada na plataforma de crowdfunding KissKissBankBank. Queriam reunir 200 mil euros em dois meses, o que conseguiram em apenas dois dias. No final dos dois meses, juntaram perto de 450 mil euros e quase um terço dos financiadores pediu para serem plantadas árvores como troca do donativo. Depois chegariam parceiros como France 2, Orange Cinema Séries, Agência Francesa de Desenvolvimento, fundação AKUO, rede Biocoop, empresa de energia Enercoop, Veja, Léa Nature, Distriborg, Hodzoni, Féminin bio. Com o orçamento de 1,2 milhões de euros, foi possível fazer o filme.

Cyril Dion é poeta, escritor, ator e ativista fundador do Mouvement Colibris, de que foi dirigente até 2013, com o objetivo de construir uma sociedade mais ecológica e humana, Mélanie Laurent é atriz e realizadora de cinema. O filme, vencedor do César de Melhor Documentário de 2016, parte de um estudo científico publicado na revista Nature em 2012, o qual anuncia o colapso dos nossos ecossistemas e o fim das condições de vida estáveis na Terra.

26.8.16

Confiança nos media

Em estudo divulgado pela União Europeia de Radiodifusão (EBU na sigla inglesa, European Broadcasting Union), a confiança dos cidadãos europeus face aos media tem caído. Apesar disso, a rádio é o meio de comunicação mais fiável, enquanto em Portugal à rádio se junta a televisão. No conjunto da União Europeia, 55% da população confia na rádio, 48% na televisão, 43% na imprensa, 35% na internet e 20% nas redes sociais. Em Portugal, depois da rádio e da televisão, com 37%, segue-se a imprensa com 24%. A internet e as redes sociais têm apreciações negativas [infografia retirada do jornal Público versão em papel de 23 de agosto de 2016].


25.8.16

Sonia Rykiel

Em 15 de abril de 2009, escrevi aqui:

"Com 17 anos de idade, ela [Sonia Rykiel] foi trabalhar como modelo para um armazém parisiense de têxtil. Mais tarde, casou com o dono de uma loja de roupa elegante, Sam. Quando estava grávida, em 1962, ainda não havia roupa apropriada para mulheres no estado dela, pelo que começou a desenhar os seus próprios modelos. Um livro sobre ela diz que Rykiel consagrou-se ao essencial: a arquitectura do vestuário e ao movimento do corpo, uma mulher que passe na cidade ao encontro do namorado ou vá buscar o seu filho à escola sem ficar presa aos gestos e movimentos (Genevieve Lafosse Dauvergne, 2003, La Mode Selon Sonia Rykiel, p. 13) Além de costureira, ela também tem escrito livros, casos de Et je la voudrais nue, Célébration, Collection terminée. Em 1980, foi votada como uma das dez mulheres mais elegantes em todo o mundo. Andy Wharol fez um célebre quadro dela".


Hoje, a notícia é a da sua morte, chamando-a a rainha das malhas. Ela tinha estado em 2004 na ModaLisboa [imagem de 2009 de loja em Paris].

24.8.16

Dersu Uzala

Dersu Uzala era um caçador da tribo Nanai que vivia na parte mais oriental da Sibéria no começo do século XX. A sua família fora dizimada pela varíola e ele errava pela floresta em busca de alimentos e caça, nomeadamente de martas, cujas peles vendia para obter algum dinheiro. Profundo conhecedor da natureza, tratava os animais como companheiros, a lembrar um pouco a consciência dos militantes urbanos que descobriram a ecologia na década de 1960, dentro da ideia de equilíbrio entre os diferentes elementos da natureza.


Um dia, encontra uma equipa militar que explorava em termos de geografia e topografia o território. Estava-se, como escrevi acima, no começo do século XX e o poder político russo precisava de cartografar adequadamente o país, em especial na vastíssima e quase inexpugnável zona mais a norte e mais a leste. Nela habitavam tribos ou grupos de comunidades muito isolados e vivendo uma economia de sobrevivência, com culturas antigas e povoamentos que incluíam mongóis e chineses, os vizinhos do sul. Muitos eram caçadores mas havia também pescadores e recoletores. A equipa de militares era comandada pelo capitão Vladimir Arseniev, que escreveria depois livros sobre as suas expedições e que narrou os contactos com Dersu Uzala (interpretado por Maksim Munzuk), rapidamente promovido a guia do grupo. Pela sua sabedoria ligada à natureza, ele foi muito benéfico para o avanço dos trabalhos científicos. Do seu contacto com o capitão Arseniev (interpretado por Yuri Solomin) nasceu uma profunda amizade e uma prova da importância de juntar o conhecimento teórico e intelectual ao prático.

Com a imagem conduzida por uma câmara à altura do homem quando se trata de mostrar a evolução da investigação guiada pelo caçador Dersu e uma posição de cima para baixo quando se mostra a posição do cartógrafo ficamos a compreender melhor o entrosamento de dois mundos tão próximos - o olhar a natureza - mas já tão afastados - o caçador e o cartógrafo veem duas coisas distintas conforme as suas necessidades. Isso torna-se evidente no final do filme, quando o caçador é recolhido em casa do capitão e se depara com proibições: acampar na cidade, dar tiros na cidade. Uma das sequências inesquecíveis do filme é  a da investigação na estepe gélida ao final da tarde, quando o caçador e o capitão estão sós e perdidos do resto da expedição. O caçador conduz a operação de recolha de caules de plantas e improvisa uma cabana sob a qual dormem, escapando aos ventos que podem atingir cerca de 60 graus negativos. Outra sequência impressionante da luta contra a natureza é a do salvamento do caçador, que não sabe nadar, quando fica sozinho numa jangada. O esforço coletivo dos militares leva à rápida opção de lançar um tronco ao rio, devidamente controlado com cintos, e que chega a Dersu e o ajuda a sair da situação complicada.

Dersu Uzala (ou A águia das Estepes, デルス·ウザーラ em japonês, Дерсу Узала em russo) é um filme do japonês Akira Kurosawa (1975), a sua primeira obra fora do seu país, após um período em que ele se sentiu deprimido (e tentou o suicídio), que lhe trouxe o fracasso de um filme anterior Dodesukaden. O cineasta recebeu um convite soviético do estúdio Mosfilm para realizar o trabalho autobiográfico de Arseniev.

23.8.16

Uma Pastelaria em Tóquio

Com o título Uma Pastelaria em Tóquio (An (あん?, 2015, Sabor da Vida, título no Brasil), filme nipónico-franco-alemão escrito e realizado por Naomi Kawase (1967), com base em romance de Durian Sukegawa, conta a história de três pessoas, com as suas histórias de vida distintas numa pastelaria de Tóquio especializada na venda de dorayaki, tipo de panqueca japonesa, localizada junto a uma passagem de caminho de ferro e perto de uma escola. Mas só se vão descobrindo as particularidades individuais, com uma passagem para o dramático, à medida que o filme decorre. O gerente da loja (Masatoshi Nagase, no papel de Sentaro) esteve preso e tem uma dívida para cobrar ao dono do espaço, a septuagenária (Kirin Kiki, no papel de Tokue) que quer trabalhar na pastelaria tem lepra, a jovem estudante quer abandonar a escola porque falta um ambiente caseiro que a proteja.

De começo, não percebemos como as coisas se vão resolver, a não ser a habilidade da velha mulher em cozinhar bolos de feijão de creme azuki. A pastelaria ganha súbito sucesso graças aos bolos de feijão e perde a clientela quando se conhece a doença da velha cozinheira e a sua morada - uma leprosaria. Mas os laços destas personagens que representam três gerações - a saída da II Guerra Mundial, a nascida no boom económico da década de 1960 e a geração do século XXI - começam a estreitar-se. Se quisermos, há uma passagem de sabedoria e testemunhos, em que um simples canário [lê-se do mesmo modo em japonês e português] também serve de ligação. O olhar e a palavra são dádivas e preenchem a existência uns dos outros: a velha vê o gerente da loja (a que chama carinhosamente patrão) como o filho que não teve; o gerente vê nela a mãe com quem não manteve conversas; a jovem em busca de um lar com familiares estruturados. E ainda pelo estreitamento com a natureza, caso da compreensão de Tokue quanto à vida de cada feijão - o sol, a humidade - como se cada vegetal tivesse uma vida própria. Ou da cerejeira, a árvore da vida da velha doente.


Há dois pormenores suplementares vislumbrados por um ocidental apaixonado pela cultura oriental. Numa conversa entre Tokue e a jovem estudante, ouve-se em fundo uma oração budista. Quando a proprietária da loja (atriz Miyoko Asada) vem falar com o gerente e lhe impõe o despedimento da velha cozinheira, a expressão e enquadramento lembram as máscaras do teatro clássico japonês bunraku.

[como pequena homenagem à realizadora, deixo uma imagem da sua cidade natal, Nara, que tirei em junho de 2016]


20.8.16

“A RTP não tem uma elite com coragem para fazer diferente”, diz Eduardo Cintra Torres

"São pobres em género e imaginação. Desistiram. A fórmula «dar ao público o que o público quer» está quase certa, mas impede aquele «grão na asa» de inovação que poderá agradar ao público, já que este, antecipadamente, não sabe tudo, dado que não é especialista de TV e não lhe compete imaginar a inovação. A SIC e a TVI afunilaram os géneros. Em termos de êxitos para o público «do costume», só confiam nos noticiários longos, nas novelas, nos talk shows, e, no caso da TVI, naqueles reality show cada vez mais ordinários. Nos noticiários, a SIC destaca-se pela qualidade geral técnica e de texto. Tem as grandes reportagens mais bem feitas. Mas ambos os canais claudicam com frequência a interesses publicitários, uma publicidade escondida sem qualquer ética jornalística. A RTP 1 tem um pouco mais de variedade de géneros, mas sem beneficio de interesse público".

Citação da entrevista a Eduardo Cintra Torres, por Maria João Avilez (Observador, de 20 de agosto de 2016). Eduardo Cintra Torres é apresentado como o mais respeitado dos atuais críticos de televisão, com 59 anos, licenciado em História, mestre em Comunicação e doutoramento em Sociologia, professor na Universidade Católica e no ISCTE, e crítico de televisão em canal televisivo e em jornal (ambos do grupo do Correio da Manhã).

14.8.16

A história da rádio segundo Álvaro de Andrade (8)

Na Emissora Nacional, começou a 24 de abril de 1937 o programa Meia Hora da Saudade. A sugestão partira de um ouvinte em Moçambique, no tempo em que Portugal tinha um imenso império colonial - a de pessoas que tinham familiares em África mas também na Madeira ou nos Açores poderem falar com esses familiares ou amigos deslocados. Era apenas meia hora por mês, mas tornou-se um programa muito popular. Ainda não havia estudos de audiências, mas a estação oficial (ou pública, como hoje se diz) recebeu muitas cartas de agradecimento.

No texto escrito por Álvaro de Andrade, homem do teatro e da rádio, o também jornalista, que escreveu até provecta idade (Diário Popular, 22 de setembro de 1970), conta várias histórias sobre o programa, a nível de receção do mesmo. Naquela altura, um aparelho de rádio era ouvido por várias pessoas, familiares e amigos, reunidos em círculo à volta dele, sem falar ou tossir sequer. Um ouvinte regulava os registos, isto, é os botões do complexo recetor, e todos se concentravam na luz do aparelho até ouvirem a voz do locutor pronunciar as 21 horas, o começo do programa. Notícias várias: a sobrinha que casou com um piloto, duas meninas a tocar piano para que o pai as ouvisse no interior africano.

Depois, a Emissora Nacional, embalada pelo sucesso do programa criado no tempo de Henrique Galvão como presidente da estação e que os sucessores António Ferro e seguintes mantiveram, abriu um programa orientado para os pescadores que estavam na frota da pesca do bacalhau (Hora da Saudade, e onde mães, filhas e amigos falavam nos estúdios da Emissora Nacional na rua de S. Marçal ou em estúdios improvisados em centros piscatórios do país), os emigrantes (em França e Montréal, Canadá) e, no começo da década de 1960, um programa para os soldados que faziam a guerra em África. Deste tempo, e com a apropriação televisiva, os soldados engasgavam-se e diziam "muitas propriedades" em vez de "muitas prosperidades", ideia que se associa ao Natal e ao Ano Novo, e "até ao meu regresso".



11.8.16

Aura Festival

Aura Festival é um festival de artes da luz e de cartografias emocionais do território a decorrer à noite em Sintra (18 a 21 de agosto), dedicado à experimentação e à memória e com entrada livre. Em segunda edição, sob o tema Histórias da Noite, há um percurso pedonal entre o MU.SA (Museu das Artes de Sintra) e o Palácio Nacional, onde se oferece a residentes, comerciantes e visitantes, a experiência de imersão na paisagem noturna da vila e a fruição poética da iluminação artística nos meandros misteriosos de Sintra (informação da organização).


8.8.16

Benamôr


É um texto publicado no Expresso de sábado (6 de agosto), assinado por Catarina Nunes. Nele se conta o início da perfumaria Benamôr em Lisboa em 1925 e do pedido do seu proprietário para desenvolver um creme de rosto ao laboratório Nobre (Campo Grande). Nasceram depois um pó de arroz e uma água de colónia e a constituição da fábrica Nally (ainda no Campo Grande). Um produto dedicado à queda do cabelo (Petróleo Químico) teve sucesso em 1934, a que se seguiram um bronzeador e a produção para marcas internacionais como Helena Rubinstein, Pantene e Schwarskopf-Sillouet. 1999 foi um ano terrível com o incêndio na fábrica e destruição do espólio e décadas de trabalho.

Agora, com novos proprietários da marca e da fábrica Nally (Carregado), a Benamôr posiciona-se para ser uma marca internacional de cosméticos na gama de luxo a competir com as marcas Khiel's e L'Occitaine. A nova orientação começou com três referências de produtos, chegou às 14 e quando houver 50 abre lojas. Entretanto, as novas gamas são vendidas em A Vida Portuguesa e El Corte Inglés, apontando-se para as vender também em farmácias de prestígio. O reposicionamento da marca implica um investimento acima dos cem mil euros.

6.8.16

Andor violeta


Andor violeta foi uma expressão que sempre achei, em simultâneo, fascinante e estranha. Significa apenas "põe-te a andar" ou "sai da minha frente, não me aborreças". Há outras expressões ou palavras igualmente curiosas como sertã (frigideira), "estar com o toco" (estar aborrecido) ou morcão (tonto ou estúpido). E ainda cruzeta (cabide), ferrar o jeco (fazer uma dívida), trolha (pedreiro) ou carago (caramba).

Estas e outras palavras fazem parte das entradas do livro lançado ontem no café Progresso (Porto), Dicionário do Calão do Porto, de João Carlos Brito (Porto, 1966). Licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas Modernas, exerce a profissão de professor-bibliotecário na Escola Secundária de Gondomar. Em 2010, publicara Heróis à Moda do Porto, a que se seguiu em 2014 Lugares e Palavras do Porto. Agora é a vez do dicionário.

O autor é favorável aos regionalismos. Aquando da saída do livro anterior, ele defendia as marcas linguísticas regionais, as quais tendem a esbater-se devido à televisão. No lançamento do livro de ontem, foi um pouco mais longe e falou de centralismo de Lisboa. Mas elogiou marcas de identidade linguística dos madeirenses e açorianos, com vocábulos levados do Alentejo para aquelas paragens. Creio que, a par dos regionalismos da região portuense, deve haver um estudo das marcas linguísticas alentejanas.