19.2.17

Amália


De entrevista dada ao Diário de Notícias de 18 de fevereiro de 2017, Filipe La Féria diz que o musical Amália teve 3,5 milhões de espectadores em seis anos em cena. A sua atual reposição deve-se a muitos pedidos do público, por um lado, e à presença de muitos turistas na sala do Politeama, razão pela qual coloca legendas em inglês, francês e espanhol. Para a nova temporada do musical, ele escreveu textos novos para enquadrar melhor as dimensões da vida da fadista, além de um vídeo em 3D e que também é uma homenagem aos pintores do período vivido por ela, de Almada a Stuart Carvalhais, Júlio Pomar a Helena Vieira da Silva.

A cantora Alexandra encarna a personagem principal (Amália), mas a peça tem uma Amália jovem (Anabela) e criança, de modo a se perceber melhor a história da fadista. O elenco tem mais de 70 pessoas em palco e o investimento para o pôr a funcionar foi de perto de meio milhão de euros. O palco, por vezes, divide-se em dois níveis, representando épocas de proximidade ou evolução de um movimento, como a procissão, do ponto de vista visual de grande espetacularidade.

Na entrevista, La Féria falou ainda de alta cultura (elite) e de cultura popular. Sim, na realidade o público nacional assistente, mais velho do que mais novo, conhece as letras das canções de Amália e bate palmas quando se fala numa ou noutra canção. As dificuldades iniciais de vida, os sucessos internacionais, as paixões, a permanente mágoa íntima da artista e o conhecimento com Alain Oulman, responsável do disco Com Que Voz, gravado em 1969, são alguns dos temas da peça musical.

18.2.17

À noite, todos os gatos são pardos


Nos longos minutos iniciais, não sabia o que fazer: se me manter no lugar ou sair da sala. Não havia sons, do palco vislumbrava algo - pareciam-me lanternas, vestes longas. Os sons surgiram algum tempo depois, primeiro um ribombar de trovões, depois música repetitiva mínima. Algumas pessoas saíram da sala, eu tinha dificuldade de as acompanhar, pois estava no meio da antepenúltima fila. Outros espectadores ligavam o telemóvel - o que é expressamente proibido -, parecendo as luzes de pirilampo numa sala em quase completa negrura. A folha do espetáculo informa que à noite, quando a luz é fraca, os cones da nossa retina não têm sensibilidade e não distinguem as cores. No caso, nem as formas eu conseguia adivinhar. A mesma folha de espetáculo indica que a peça procura reinventar a perceção da interpretação de um movimento coreográfico em quase penumbra. O que eu via não correspondia a nenhuma penumbra mas a uma inversão de iluminação, porque a régie se situa na parte de trás da sala e vinha de lá bastante luz.

Um insucesso, repeti para mim diversas vezes. Da ficha técnica não consta o nome do responsável das luzes, por isso, culpabilizaria a direção técnica, o vereador da cultura e até o presidente da câmara, cujo nome aparece provincianamente na folha de sala do bailado.

Depois de meia sala ficar provavelmente nervosa com a situação, a música ganhou relevo, a luz apareceu no palco e as silhuetas ficaram mais esclarecidas. Afinal, não havia lanternas mas apenas as mãos que refletiam a escassa iluminação que caía sobre os bailarinos e as vestes longas que eu imaginara eram apenas movimentos dos bailarinos. Ficou um longo momento de puro deleite, com os movimentos dos quatro bailarinos sincronizados, ágeis e elegantes. Assim, gostei muito de La nuit tous les chats sont gris (À Noite Todos os Gatos são Pardos), coreografia de Laurence Yadi e Nicolas Cantillon, interpretada por Melissa Ugolíni, Marie Khatib-Shahidi, Sérgio Noé Quintela e Rosana Ribeiro, com música de Maurice Louca para a Companhia Instável.

Mas, por favor, na próxima coreografia, mudem a mesa da régie para outro lado. E não sejam tão rigorosos no conceito de penumbra. Da penúltima vez que eu estive na sala, não ouvi adequadamente o que os atores diziam na peça. Pensei: a minha audição está a ficar muito mal. Agora, passei a ter problemas de visão? Conselho: não vendam bilhetes das últimas filas. Ou indiquem que o espectador pode ter má visibilidade ou má audição - pelo menos, seria tudo mais honesto. E as cadeiras não são tão confortáveis como se julga a princípio.

17.2.17

Encontro do grupo de Rádio e Meios Sonoros (SOPCOM)

Foi um dia preenchido o do I Encontro do GT de Rádio e Meios Sonoros da SOPCOM, realizado hoje na Universidade do Porto. Como aliciante, dois convidados de muita qualidade: Francisco Sena Santos (profissional da rádio e atual docente da Escola Superior de Comunicação Social) e João Paulo Baltasar (diretor de informação da Antena 1) [imagem de Ana Isabel Reis].


João Paulo Baltasar, com trinta anos de carreira desde o curso de formação na TSF em 1987, destacou o lado artesanal e oficinal da rádio. Ainda sem saber qual o melhor papel – jornalista ou radialista –, ele defende a importância dos sons na notícia (os sons são os parágrafos da imprensa escrita) e do trabalho em equipa num meio de tão grande plasticidade como a rádio. O diretor de informação da rádio pública é um defensor da reportagem. Francisco Sena Santos corroborou a ideia de rádio como escola de artes e ofícios, mas falou da rádio como meio de resistência ao sensacionalismo que se vê todos os dias na televisão. De outro modo: a televisão dá o lado mau das coisas (o mórbido, o veneno) enquanto a rádio mostra o lado bom das coisas, através dos sons e da síntese. Ambos identificaram mestres: João Paulo Guerra, Adelino Gomes, Fernando Alves, Alexandra Lucas Coelho, Paulo Alves Guerra. E os dois pensam na necessidade de fugir da agenda dos factos e dos pseudo-factos (conferências de imprensa, visitas).

O diretor da Antena 1 trouxe um podcast e um vídeo de/com Rita Colaço (O Som da Minha Vida, com António Macedo) como exemplo de trabalho sério em termos de rádio. Francisco Sena Santos elegeu os sons como os elementos importantes da história, mesmo com ausência da voz do repórter. Também entende que a rádio não é tanto a música como a voz que faz companhia (por exemplo, a pessoas isoladas). E descansou o auditório com as novidades tecnológicas (DAB +), porque a rádio é um meio móvel desde o transístor, a internet possibilita ouvir rádios de todo o mundo e o podcast permite ouvir o que não se pode ouvir no momento.

Na fase de perguntas e respostas dos convidados, falou-se dos espaços abertos a ouvintes, como o Forum TSF e a importância de haver um especialista, além do jornalista, que pontue a conversa com conceitos e práticas, o sotaque na rádio, a importância do improviso na reportagem em direto, a marca da rádio, audiências, impacto das redes sociais e desporto. Como resumo, os dois radialistas e jornalistas recomendam: contar melhor o mundo (não só Lisboa e Porto), fugir da agenda e lutar contra o sensacionalismo. Para além da rádio como fator de alegria (as rubricas de humor, por exemplo), a rádio de serviço público – conceito muito falado e entendido como sendo para além da obrigação da Antena 1 – deve possuir outro perfil, como sair para a rua e estar próximo das comunidades.

15.2.17

Museu José Malhoa


As vezes que visitei o Museu José Malhoa (Caldas da Rainha) trouxe boas recordações. Do pintor naturalista, o museu representa o maior núcleo da sua obra. Recordo o encantamento de obras como Retrato da Menina Laura Sauvinet (1888) e As Promessas (1933, ano da morte do pintor). Aquela foi aluna do artista, esta um pungente quadro de procissão. Da obra do pintor, destaco ainda O Fado, em exposição noutro museu.

Na última visita, fiquei com a sensação de sobrexposição de quadros. Uma leitura mais moderna da pintura aconselha a exposição de menos obras ou uma rotação de obras, de modo a um maior usufruto. E a qualidade de algumas delas não é tão conseguida, incluindo do autor que dá o nome ao museu.

De Rafael Bordalo Pinheiro, sobressai, no museu, o conjunto de 60 esculturas de terracota da Paixão de Cristo.

13.2.17

Dia Mundial da Rádio


A minha homenagem a dois profissionais de Rádio Clube de Moçambique: locutor António Luiz Rafael e técnico de som Carlos Ribeiro da Silva, este com o gravador de fita magnética (em reportagem junto à barragem de Cahora Bassa, então em construção; daí os capacetes).

[fotografia retirada das páginas de Facebook de ambos].

Évora



1) campanha publicitária?
2) presépio de exposição temporária na Igreja de São Francisco (núcleo museológico e de exposições).

12.2.17

Censura na música

A ouvir o capítulo de David Ferreira sobre a censura no seu programa David Ferreira a Contar (7 de fevereiro de 2017). Ele mostra três exemplos, o primeiro de uma canção cantada por Amália Rodrigues (1962), onde ela expressa a perda do livre pensamento do amante longe e preso, a lembrar a prisão de Peniche onde estavam os presos políticos. A censura contactou a Valentim de Carvalho, respondendo Maria Eulália, a mãe do próprio David Ferreira, que indicou que o poema, de David Mourão-Ferreira, o pai do mesmo David Ferreira, retomava a poesia medieval portuguesa.

Dez anos depois, em 1972, José Niza, produtor de disco de José Afonso, almoçara com o censor Pedro Feytor Pinto para apresentar o disco que se preparava e que incluía uma poesia sobre um pintor assassinado. Perguntou o censor: isso é sobre o pintor Dias Coelho? Resposta do produtor: mas quem é que conhece a história dele?

A terceira história decorreu na mesma época e em Angola, onde havia uma malha menos apertada da censura. Uma música dos Cabinda Ritmo fazia grande sucesso em Luanda, com influências da música do Congo. Logo depois, os Kiezos lançaram a música Milhoró (corruptela de melhoria), já antiga mas apenas editada então e com uma mensagem explícita: os que não dançam a mesma dança devem voltar à sua terra. A censura pediu explicações e veio uma resposta quase parva: a letra destinava-se aos Cabinda Ritmo, que tinham roubado contratos musicais e namoradas. Houve quem acreditasse.

11.2.17

A história da rádio (e outros tópicos em volta da rádio) em programa da televisão

Ontem, 10 de fevereiro de 2017, no programa Sociedade Civil (RTP 2), falou-se de rádio. Com condução do programa de Luís Castro, estiveram Isilda Sanches (Antena 3), Graça Franco (Rádio Renascença) e Rogério Santos (Centro de Estudos Comunicação e Cultura, Universidade Católica Portuguesa). Houve oportunidade de se falar em alguns episódios da história da rádio em Portugal.

10.2.17

Rosalía de Castro no museu Barata-Feyo


Diz o texto do museu Barata Feyo (1899-1990): "inaugurado em 2004 e projetado por um dos seus filhos, Arquitecto António Barata Feyo, acolhe um importante acervo de obras deste escultor da escola do Porto. Escultor, ensaísta e pedagogo, foi como estatuário que mais se notabilizou. Podemos admirar os aspetos mais significativos da sua obra, de onde se destacam três grupos temáticos principais: o retrato, a escultura oficial e escultura religiosa".

Salvador Barata Feyo nasceu em Angola, frequentou a Escola de Belas-Artes de Lisboa em 1923 (cursos de Pintura e Arquitetura), antes de se dedicar à Escultura, que conclui em 1929. Em 1933, obteve uma bolsa do Instituto de Alta Cultura e partiu para Itália. Participou na Exposição do Mundo Português em 1940 (estátua de D. João I) e, em 1949, começou a lecionar na Escola Superior de Belas-Artes do Porto. Recebeu diversos prémios: Escultura Mestre Manuel Pereira (1945 e 1951), Escultura da Fundação Calouste Gulbenkian (1957), primeiro lugar no concurso para o monumento ao Infante D. Henrique (Sagres, 1958). Entre 1950 e 1960, acumulou a atividade artística e docente com a direção do Museu Nacional de Soares dos Reis e assumiu o cargo de Conservador Adjunto dos Museus e Palácios Nacionais (a partir de texto de Joana Baião para o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado).

Das suas obras expostas no museu das Caldas da Rainha, gosto muito dos trabalhos em gesso depois fixados em materiais mais fortes: Rosalía de Castro (1954, para a Praça da Galiza, no Porto) e Rainha D. Maria II (Famalicão). Durante muitos anos, eu admirei a escultura colocada no Porto. Ela estava em frente a uma vedação de sebe de arbustos, hoje, está libertada desse quase muro.

Estúdio Valentim de Carvalho


Há dias, para ilustrar o texto sobre os estúdios fonográficos, coloquei esta imagem do estúdio da Valentim de Carvalho. A existência de um enorme ecrã, ao fundo, intrigou-me. Agora, percebi. O ecrã foi instalado quando surgiu a ideia de implantar no país o sistema de dobragem de filmes. A editora fonográfica apetrechou-se para passar a fazer esse serviço no estúdio de gravação discográfica. Mas a lei não seria aprovada. O ecrã foi aproveitado para a gravação dos filmes portugueses, porque raramente havia captação de som direto. A máquina de gravar som era uma Nagra (a partir de entrevista ao técnico de som Hugo Ribeiro aqui).

Sobre a gravação de filmes, na mesma entrevista, diria Hugo Ribeiro: "estava o diretor de cinema ao pé de mim. Ele dizia «agora, sobe a música um bocadinho, agora desce ligeiramente a música, agora deixa entrar a palavra baixinho, agora sobe a palavra». Ele ia dizendo, íamos vendo e fazendo. Estávamos a ver o filme e o resultado do som no filme. Às vezes, era preciso voltar atrás porque não estava bem". Dos filmes assim gravados do ponto de vista do som, a Valentim de Carvalho editou O Cerco (1970), de António Cunha Telles, Domingo à Tarde (1966), de António de Macedo, e O Passado e o Presente (1971), de Manuel de Oliveira.


9.2.17

Debate sobre jovens a ingressar na universidade

Promovido pela revista Forum Estudante, a comemorar 25 anos de existência, decorre hoje e amanhã o 5.º Encontro Nacional de Gabinetes de Imagem e Comunicação de ensino superior. A reunião agrega mais de 100 profissionais de comunicação e marketing em representação de 65 instituições. A presente edição trabalha a comunicação com os jovens saídos do ensino secundário e a atração a criar para o ingresso no ensino superior [primeira imagem tirada pela organização].

Com moderação de Rui Marques, o responsável do projeto Forum Estudante, participei no painel inicial (comunicação abaixo). Destaco ainda palavras-chave dos meus colegas de painel Vasco Trigo e Miguel Fontes: cultura do emotainment (após o tempo do infotainment), volatilidade (face às tecnologias), ritmo da mudança, inovação igual a diversidade, sofisticação e captação da atenção. A síntese final do painel, feita pelo moderador, apontou para a necessidade de equilibrar a abundância da informação com o escasso recurso da atenção.



8.2.17

Regulamentação do cinema português

Ontem, onze associações profissionais do cinema promoveram uma conferência de imprensa onde manifestaram a sua contestação da proposta de novo decreto-Lei de regulamentação do funcionamento do cinema português. Na sequência, e após declarações do secretário de Estado da Cultura, emitiriam um comunicado, onde identificaram a sua discórdia perante a interpretação do artigo 14º que regula o processo de nomeação de jurados e composição de júris para os concursos de apoio ao Cinema.

Ao secretário de Estado, pediram para esclarecer o conteúdo desse artigo, a partir da proposta do Instituto do Cinema e do Audiovisual, onde se descreve o processo de nomeação de jurados e júris para homologação pelo Secretaria de Estado da Cultura, com três etapas: 1) o Instituto do Cinema e do Audiovisual, após consulta à Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual, elabora uma bolsa de um mínimo de 60 jurados, 2) o Instituto do Cinema e do Audiovisual elabora proposta de composição dos diferentes júris dos diferentes concursos, a partir dessa bolsa, 3) as propostas são submetidas à aprovação da Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual. Pela redação do artigo, a direcção do Instituto do Cinema e do Audiovisual fica submetida à Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual na nomeação dos júris.

Contudo, o secretário de Estado descreveria um processo de duas etapas: "No que concerne à eleição do júri para a seleção dos projetos a concurso, o Instituto do Cinema e do Audiovisual compõe uma bolsa de jurados e distribui os júris pelos vários concursos tendo por base uma lista bastante alargada proveniente da Secção Especializada do Cinema e do Audiovisual". As associações que assinaram o comunicado concluiriam existir uma omissão nos esclarecimentos do secretário de Estado ou uma alteração à versão final do decreto-lei sem conhecimento prévio.

Assinaram: APR – Associação Portuguesa de Realizadores, APCI - Associação de Produtores de Cinema Independente, APORDOC – Associação pelo Documentário, Agência da Curta-Metragem, Portugal Film, Indie Lisboa, DocLisboa – Festival Internacional de Cinema, Curtas de Vila do Conde – Festival Internacional, SINTTAV – Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e do Audiovisual, Cena – Sindicato dos Músicos, dos Profissionais do Espectáculo e do Audiovisual.

7.2.17

Frescos do cinema Batalha (Porto)

O pintor Júlio Pomar vai recuperar os frescos do Cinema Batalha que ele próprio pintou em 1946 e mandados tapar por ordem de Salazar, após a sua prisão por pertencer ao MUD (Movimento de Unidade Democrática).

Fechado há mais de década e meia, o cinema Batalha vai ser arrendado à câmara do Porto por 25 anos e dez mil euros mensais para instalar a Casa do Cinema. Os dois frescos de Júlio Pomar, alusivos às festas de São João, foram pintados em 1946 quando Pomar tinha 20 anos e frequentava a Escola de Belas Artes do Porto [informação e imagem retiradas de notícia do Diário de Notícias].

6.2.17

Tópicos para a compreeensão das editoras discográficas portuguesas na década de 1980

(mensagem totalmente baseada em texto publicado no sítio  Sinfonias de Aço)

Distingo editoras grandes (Valentim de Carvalho, Estúdio RPE/Angel Studio, Rádio Triunfo, Arnaldo Trindade, Musicorde, Namouche) e outras.

A Valentim de Carvalho iniciou a sua atividade de gravação no início da década de 1930. Em janeiro de 1963, inaugurou o novo estúdio de áudio em Paço de Arcos, por onde passaram grandes nomes da música portuguesa. Tó Pinheiro da Silva entrou em 1980 para engenheiro de som desses estúdios Paço de Arcos, onde conheceu nomes como Hugo Ribeiro e José Fortes. Em 1988, os preços eram de 7200 escudos (estúdio 2) e 9500 escudos (estúdio 1), passando à noite e fins-de-semana para 11500 escudos (estúdio 1) e 10300 escudos (estúdio 2) [imagens retiradas de entrevista a Hugo Ribeiro, publicada pela Restart].


Estúdio RPE. Em 1979, o maestro Fernando Correia Martins convidou José Fortes para ir gravar no estúdio RPE – Rádio Produções Europa. Fortes remodelou o estúdio e criou condições profissionais para boas gravações, mudando o nome para Angel Studio e tornando-se sócio. O álbum Ar de Rock, de Rui Veloso, foi o primeiro a ser gravado na mesa de 24 pistas do estúdio RPE. O single Robot, dos Salada de Frutas, também foi aí gravado, do mesmo modo que Por Este Rio Acima. Também aí gravaram nomes como José Afonso, Lena d'Água e Júlio Pereira, bem como artistas da Polygram (Táxi, Heróis do Mar e Mler Ife Dada. Havia dois estúdios autónomos: Angel Studio I na rua D. Fuas Roupinho, 50 A e II na rua da Centieira, 35. Em 1988, os preços por períodos de quatro horas eram de dezasseis contos (I) e vinte e seis contos (II), reduzindo para metade aos fins de semana e feriados. O Angel Studio associou-se à Valentim de Carvalho no início da década de 1900.

Rádio Triunfo. Em 1969, José Fortes foi convidado para dirigir os estúdios de Lisboa da Rádio Triunfo, onde permaneceu cerca de dez anos. Neste estúdio gravavam os nomes de Rádio Triunfo, depois Orfeu. Moreno Pinto foi um dos técnicos ligados a estes estúdios. Em 1981, Paulo Junqueiro tinha gravado 12 fados com António Chainho.

Musicorde (Campo de Ourique). No verão de 1979, Eugénia Melo e Castro gravou neste estúdio uma maqueta de quatro originais que se destinavam ao seu primeiro álbum. A edição em CD, com o nome de Recomeço, inclui na capa um documento da editora. Em 1971, Rui Remígio entrou para a RDP e, no ano seguinte, foi convidado para trabalhar no estúdio Musicorde por Alberto Nunes (dono e sócio). Aí gravaram publicidade radiofónica, José Carlos Ary, ranchos folclóricos e bandas filarmónicas e nomes como Táxi, Lena d’Água e Trovante. Além disso, discos de José Afonso, Paulo de Carvalho, Pedro Caldeira Cabral e Ama Romanta. Em 1988 a equipa técnica era formada por Rui Remígio, Fernando Santos e Alberto Nunes. A gravação directa com duas pistas estéreo era a 2000 escudos e mais 500 escudos no caso de oito pistas.

Namouche. Tó Pinheiro da Silva entrou para estes estúdios em 1983, trabalhando também Guilherme Inês e José da Ponte. Usavam uma tecnologia diferente, a do áudio para vídeo que permitia trabalhar em pós-produção. Uma das fileiras foi a gravação para publicidade. Depois de ter estado no Brasil, Paulo Junqueiro regressou a Lisboa, mas, desentendido com Fernando Albuquerque quanto à construção dos novos estúdios da Namouche, partiu em 1985 para São Paulo. O single Barcos Gregos, dos Xutos e Pontapés, foi gravado em fevereiro de 1986, acontecendo o mesmo com Bairro do Amor, de Jorge Palma, e A Preto e Branco, de Fausto. Em 1988 tinham dois estúdios a funcionar em Benfica, um com 24 pistas e outro com oito. O estúdio de Campolide já estava desativado. Os técnicos eram Tó Pinheiro da Silva, João Pedro Leitão, João Magalhães e Luís Oliveira. Os preços eram a 3,5 contos por hora no de oito pistas e 8,5 contos por hora no outro.

Outros estúdios seriam Tcha Tcha Tcha (fundado em 1986 por Ramón Galarza, empresa de produções musicais com estúdios próprios de gravação. Os dois estúdios ainda se mantêm. O álbum Muito Obrigado, dos Ocaso Épico, foi gravado neste estúdio), Aurastúdios (Paços de Brandão, fundado por Fernando Rocha, ex-FM), Aiksom (estúdio do compositor e produtor Ricardo Landum), Xangrilá (estúdio existente desde a década de 1970, com Luís Pedro Fonseca a tomar conta a partir de 1985. Gravaram no estúdio nomes como José Afonso, Fausto, Sérgio Godinho, Madredeus, Mísia e Rao Kyão. Outros dos nomes que se mantém ligado ao estúdio é Jorge Barata), Fortes & Rangel (estúdio do Porto fundado por José Fortes e Fernando Rangel em 1962),  Matos de Oliveira (ligado à Metro-Som situado na Rua Carlos Mardel, 5-2, Lisboa, mais pequeno que o estúdio Gravisom, virado para o apoio dos músicos da música ligeira. O preço por hora, em 1988, rondava os três contos), Discossete, Edit Studio (Amadora. Da equipa técnica destacavam-se os ex-Beatnicks, Ramiro Martins e Mário Casanova), Estúdio Midi (rua Dr. Faria de Vasconcelos, 4A- Lisboa. Em 1988, a equipa técnica era constituída por Manuel Cardoso, Pedro Luís e Pita. O preço era de três contos por hora, havendo preços especiais para maquetas), Espírito Santo (avenida 25 de Abril, Almada, ligado ao UHFsom. Da equipa de técnicos faziam parte Pedro Banha e Luís Espírito Santo, então elemento dos UHF. O preço por hora era dos mais baratos, 800 escudos ou metade em caso de artistas individuais), Hipolab (rua da Torre, nº5 em Oeiras. Um dos proprietários era Renato Júnior dos Barbarella. Em 1988, já tinham gravado vários singles e uma banda sonora portuguesa. 1500 escudos era o custo da hora de gravação. Permitia o ensaio durante oito horas seguidas ao preço de 1.000$00), Polycord (praça João do Rio, 8, 1 ºEsq, em Lisboa), Gravisom (criado em 1988 por Matos Oliveira, no bairro da Encarnação), AMP (montado por Paulo Miranda em Viana do Castelo. O seu proprietário orgulha-se de ter sido ali que foi registado, em 1988, o primeiro CD português para uma independente: o Riso e o Sizo, de Félix).

4.2.17

Cerâmica portuguesa em livro

Editado pela APICER – Associação Portuguesa das Indústrias de Cerâmica e de Cristalaria, coordenado editorialmente por Lurdes Morais, conceção e textos de Carlos Lacerda, Clara Pimenta do Vale, Lurdes Morais e Monstros & Companhia – Soluções de Comunicação e fotografia de Clara Pimenta do Vale, saiu o livro Cerâmica Portuguesa: Tradição e Inovação [pode ser consultado aqui].

Retiro da introdução: "O livro Cerâmica Portuguesa: Tradição e Inovação pretende ser uma mostra do que de melhor Portugal tem para oferecer nesta área, num contexto de mercado global e da necessária diferenciação em que uma indústria deve apostar para se afirmar nesse contexto. O projeto editorial aposta na força da imagem, enquanto testemunho da ação, e no papel das palavras de apoio de muitas pessoas, ou instituições, que reconhecem o carácter diferenciador da indústria cerâmica portuguesa, não apenas do ponto de vista do produto final, mas também como repositório de saberes e de uma forte identidade social e cultural" [imagem: painel de azulejo da autoria de Hundertwasser na estação de metro do Oriente, Lisboa].

2.2.17

Cem anos de cadernetas de cromos

Foi inaugurada ontem na Biblioteca Nacional a exposição Cadernetas de Cromos - 100 Anos do Cromo Colecionável em Portugal, comissariada por João Manuel Mimoso, um dos maiores colecionadores de cromos no país.

Retiro o texto inicial da folha de exposição: "Durante as primeiras décadas do século XIX só eram conhecidos processos de impressão de imagens a uma cor (geralmente negro) e as ilustrações coloridas que se encontram em livros dessa época eram aguareladas individualmente por pintores especializados. Mas em 1837 Engelmann registou um processo planigráfico que permitia a impressão a cores, a que chamou cromolitografia. Alguns anos mais tarde começaram a vulgarizar-se pequenas estampas produzidas por este processo a que se chamava cromos. A sua atratividade era tal que em breve os industriais e comerciantes começaram a associar cromolitografias aos seus produtos, quer como decoração da embalagem, quer como oferta aos compradores".

A exposição, pela primeira vez no contexto cultural de uma grande biblioteca, é constituída por três núcleos principais: 1) introdução, em que o visitante segue as primeiras cinco décadas do período, 2) cromos oferecidos na compra de guloseimas, em quatro décadas e 3) cromos enquanto produtos vendáveis, apresentando exemplos daa origem até 1974.

Ontem, a preceder a inauguração da exposição, houve um colóquio com Carlos Gonçalves (Clube Português de Banda Desenhada) e João Manuel Mimoso, sobre a origem e a evolução das coleções de cromos dos rebuçados e caramelos em Portugal e de alguns dos seus fabricantes, desde a década de 1920 até à de 1960. Infelizmente, não assisti. Está marcado outro colóquio a 2 de março pelas 17:45, dedicado a Carlos Alberto Santos (1933-2016).




Rádio Renascença com prémio de rádio de informação

"A Renascença foi distinguida com o Prémio Cinco Estrelas, na categoria Rádios de Informação. Ao vencer nesta categoria, a Renascença vê reconhecido o novo posicionamento estratégico do canal, que se traduz num formato mais noticioso, sintetizado na sua nova frase de posicionamento: a par com o mundo. O Prémio Cinco Estrelas é um sistema de avaliação de produtos, serviços e marcas que mede o grau de satisfação global segundo os 5 principais critérios que influenciam os consumidores nas suas decisões de consumo e que, no caso particular desta categoria, terão sido a notoriedade, informação, satisfação, confiança e inovação" (retirado do comunicado do grupo da Rádio Renascença, que não referencia a entidade promotora do prémio).

1.2.17

Discos e qualidade de gravação

No final do século XX, havia um registo gravado de som muito homogéneo, devido à tecnologia. Além disso, a tecnologia permitia gravações caseiras, feitas em garagens e noutros locais, usando equipamento computadorizado muito sofisticado, sem se saber se uma gravação é feita num estúdio profissional ou em ambiente doméstico.

Massey escreve sobre um período, de meados da década de 1950 a finais da década de 1970, que conjuga com a idade de ouro da música pop e um som britânico distinto. O autor compara os sons dos Beatles com os da Motown e dos Beach Boys. Ele tece considerações culturais e técnicas. Os sons de jazz e dos blues, com este a evoluir para o rock’n’roll, são americanos. Apesar de Beatles e Rolling Stones sofrerem influências americanas (aqueles do rock’n’roll e country music, estes do rithm & blues), a verdade é que Lennon, McCartney, Jagger e Keith Richards cresceram a ouvir música diferente de Elvis Presley, Brian Wilson, Bob Dylan e Paul Simon. De outro modo, os produtores ingleses George Martin, Andrew Loog Oldham e Mickie Most radicam em tradições musicais diferentes de Phil Spector, Berry Gondy e Phil Ramone.

A II Guerra Mundial causara, além da destruição da economia e das infraestruturas inglesas, grande perturbação psicológica. O sonho do jovem inglês era americano: Disneyland, Doris Day, Rock Hudson, James Dean, Marilyn, Coca Cola, sumo de tomate Heinz, lembraria John Lennon em entrevista. Ao longo das décadas de 1950 e 1960, estúdios e produtores ingleses queriam duplicar as gravações ouvidas de Nova Iorque, Nashville, Detroit, Chicago, Memphis e Los Angeles. Mas imagine-se Yellow Submarine, dos Beatles, gravado nos Estados Unidos e não nos estúdios da EMI, com câmaras de eco únicas e uma extensa biblioteca de efeitos sonoros. O resultado seria diferente. No final da década de 1960, já era habitual haver músicos ingleses e gravar nos Estados Unidos e músicos americanos a trabalhar em estúdios ingleses. Londres deixava de ser uma colónia musical e passava a um dos principais centros criativos.

Howard Messey refere considerações tecnológicas. No pós-II Guerra Mundial, empresas como Ampex e RCA desenvolveram a tecnologia de gravação e equiparam grande número de estúdios americanos. No Reino Unido, com dificuldades financeiras que impediam a importação de equipamento americano até meados da década de 1960, quando surgiram fabricantes de consoletes como Neve, Helios, Trident e Cadac, muitos estúdios ingleses tinham mesas de mistura feitas pelos engenheiros e técnicos de som dos próprios estúdios. Isso significa que só o próprio pessoal do estúdio era capaz de operar essas mesas domésticas. Cada estúdio inglês tinha um som próprio, individual. Além das consolas, o mesmo com amplificadores, microfones e gravadores. As primeiras guitarras elétricas americanas Rickenbacker surgiram em 1931 e as Gibson em 1936.

Por contraste, as dificuldades financeiras levaram os ingleses a comprar instrumentos europeus de menor qualidade e de empresas alemãs: Höfner e Framus. No caso dos amplificadores americanos, a funcionar a 110 volts, os ingleses, de 230 volts, desenvolveram fabricantes como Vox e Marshall. Os microfones ingleses de condensador tinham resultados melhores. Pela proximidade com a Alemanha, os ingleses compravam microfones Telefunken e Schoeps. Muitos dos estúdios ingleses, pelo menos durante a década de 1960, tendiam a ter gravadores tipo EMI ou do suíço Studer, enquanto os americanos usavam máquinas Ampex e Scully, mas também Advision, Olympia e Trident.

O registo de duas pistas – estéreo – tornou-se norma nos Estados Unidos em meados da década de 1960. O Ampex de duas pistas. Já na década de 1950 se tinham feito experiências com um gravador de oito pistas. Em 1967, muitos estúdios americanos usavam gravadores de oito pistas. Em contraste, os estúdios ingleses usavam quatro pistas. 1968 foi o ano da introdução do primeiro gravador de 16 pistas (marcas Ampex, Scully e Studer). 1970 viu nascer os modelos de 24 pistas.

O livro, com 357 páginas, estuda a EMI (Abbey Road) e os outros três principais estúdios (Decca, Philips e Pye), as etiquetas independentes e outros estúdios mais pequenos mas de grande evolução e inovação, sempre com indicações de equipamentos (consolas, microfones) e músicos e bandas e discos gravados por bandas.

Leitura: Massey, Howard (2015). The Great British Recording Studios. Milwaukee, WI: Hall Leonard Books

31.1.17

Duas notícias da SPA - Sociedade Portuguesa de Autores

1) Prémio de Jornalismo Cultural para João Almeida da Antena 2. Criado em 2016, o prémio agora atribuído em primeira edição distinguiu João Almeida, diretor da Antena 2 e autor de vários programas naquela estação da rádio pública.  O prémio tem uma componente pecuniária e um troféu.

2) A SPA assinala a 1 de fevereiro a passagem do 80º aniversário do nascimento de Fernando Assis Pacheco, jornalista, poeta, ficcionista, cronista e autor de letras de canções. Associado da SPA desde 1978, faleceu subitamente em 1995 na livraria Bucholz. Coincidindo com este aniversário, é lançado o livro Tenho Cinco Minutos para Contar uma História (edição Tinta da China), com as crónicas que escreveu para a rádio pública portuguesa e que deixou gravadas na RDP.

30.1.17

Requalificação de sítios na baixa portuense

As notícias do Público a respeito do Porto já teem algum tempo, mas junto-as. A primeira, datada de 9 de novembro de 2016, indica o processo de requalificação da área situada no quarteirão da antiga casa Forte, indo da rua Sá da Bandeira à rua do Bonjardim e próximo da sede portuense do banco BCP. Num total de 28500 metros quadrados para residência, hotelaria e comércio. A conclusão da primeira fase está prevista para 2018. Ao lado, a renovação do mercado do Bolhão e do até agora café da Brasileira, a transformar em hotel, vai alterar a fisionomia da baixa da cidade.

A outra notícia, de 13 de janeiro de 2017, informa a reabilitação do cinema Batalha para albergar instalações da cinemateca. A câmara chegou a acordo com os proprietários do edifício para um aluguer de 25 anos. A mensalidade a pagar é de dez mil euros. O edifício foi projetado pelo arquiteto Artur Andrade e ianugurado em 1947. O arquiteto Alexandre Alves Costa está encarregado da sua remodelação. Durante muitos anos, o cinema Batalha era ponto de encontro ao domingo de manhã dos cineclubistas que iam ver filmes já fora do circuito comercial ou nunca exibidos.



29.1.17

O poder, os media e a denúncia

Um Inimigo do Povo (En folkefiende) é a peça de teatro do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen representada por Pedro Gil (dr. Stockmann), Isabel Abreu (sua mulher), Filipa Matta (a sua filha mais velha, a iniciar a carreira de professora primária), o intendente da cidade, João Pedro Vaz (Peter Stockmann, irmão do dr. Stockmann), e dois jornalistas de O Mensageiro do Povo, Tónan Quito (Hovstad) e Miguel Loureiro (Billing).

A leitura e discussão do texto começou em finais de 2014 em Montemor-o-Novo. Tónan Quito assinaria a direção artística, a par da de ator. O primeiro ensaio decorreu no Espaço Alkantara (Lisboa). A peça centra-se na estância balnear, a principal fonte de riqueza da cidade, e na descoberta da contaminação do sistema de água. O médico quer denunciar a situação mas o intendente e presidente da estância opõe-se, porque a estância ficaria paralisada e o investimento seria incomportável, além da perda de empregos provocada pela paragem.

O chefe de redação do jornal O Mensageiro do Povo e o responsável da tipografia, que representa a sociedade dos pequenos proprietários, estão a favor da revelação do mal, porque a denúncia faria vender mais jornais e porque o poder político local seria renovado. Mas uma visita apropriada do intendente faz mudar de opinião os elementos do jornal e a maioria sólida de apoio ao dr. Stockmann perde-se.

A segunda parte da representação projeta os argumentos dos irmãos. A pergunta é: quem está no poder é sempre mau e quem descobre a verdade é bom? A realidade parece ser mais complexa. A verdade proclamada pelo médico é justa mas acarreta a destruição da economia e da sociedade da cidade. Há um segundo tema na peça: a posição da mulher, subalterna no casal, mas que quer assumir uma posição de liderança quando vê o marido ser traído pelos jornal local. A filha, como já estudou e tem uma profissão, representa um passo na evolução da posição feminina.

No fundo, o texto tem uma grande atualidade, ao mostrar os jogos sociais do poder e de ocultação de factos e objetivos. Discussões familiares, corrupção, manipulação política, assembleias populares e apedrejamentos são algumas das consequências. A administração da estância despede o médico, o senhorio despeja a família da casa onde vivem. Mas o sogro, personalidade que não aparece na peça, compraria todas as ações da estância e dá-las-ia ao médico, que passa a ter toda a força na empresa da estância. O novo poder é solitário, diz o médico.

Ainda sobre João Perry

Em Pai, de Florian Zeller, Ana (Ana Guiomar) fala do pai André (João Perry) quando este era forte e tinha autoridade. Ela receava-o. Agora, ele estava velho e, acima de tudo, já não reconhecia ninguém. Aquela frase da filha bateu forte em mim, agora que revi a peça. Eu estava numa fila mais próxima do palco e mais atento às palavras e aos gestos do que da primeira vez.

De João Perry, recordo a sua muito antiga colaboração com o Teatro Aberto, como sugere o texto do semanário Ponto, de 5 de fevereiro de 1981. No recorte, há uma imagem de João Perry contracenando com Mário Viegas. O tema principal da notícia era o ator e encenador João Lourenço contra a crítica de teatro.



28.1.17

Exposição de pintura na Livraria Círculo das Letras

De Eduardo Santos Neves.

Nuevas Narrativas: Entre la información y la ficción

Congreso Internacional sobre Nuevas Narrativas: Entre la información y la ficción y XII Seminario Internacional de Obitel (Observatorio Iberoamericano de Ficción Televisiva). El congreso se celebrará en la Facultat de Ciències de la Comunicació (Universitat Autònoma de Barcelona), los días 3, 4 y 5 de julio de 2017, y cuenta con la colaboración del OFENT (Observatorio de Ficción Televisiva y Nuevas Tecnologías) y del Gabinete de Comunicación y Educación de la UAB. Los diferentes ejes temáticos del call for papers giran en tono a la evolución de los géneros y formatos en televisión e internet, las relaciones trasmediales y las estrategias de education-entertainment de los programas. Las personas interesadas en participar, pueden enviar sus propuestas antes de 31 de marzo de 2017: www.congresointernacionalnuevasnarrativas.com.

27.1.17

Antes que Matem os Elefantes

No início, com o palco escuro, ouvem-se vozes de crianças a falar da sua casa destruída, dos irmãos perdidos, de querer regressar à Síria, ir para a escola, voltar a comer com a família, desejar uma pista de automóveis. Acusam o presidente ditador de destruir tudo. Porquê?

Depois, sete bailarinos (quatro homens e três mulheres) passam pelo palco: dançam, mexem-se, rastejam, enchem-se de poeira, recolhem pedras, fazem-se de mortos. Há uma peça musical que fica no ouvido, a de Dhafer Youssef, um longo lamento que nos leva de imediato à bestialidade dos acontecimentos da Síria. Um país quase inteiro destruído? Como foi possível?

Olga Roriz quis conhecer de perto o grande drama dos sírios e visitou refugiados na Grécia. A sua dança-teatro de cerca de 140 minutos desenrola-se no interior de um apartamento destruído, em Alepo, com um sofá avermelhado onde um casal se contempla sem compreender o que justifica aquela violência, enquanto um frigorífico já velho e roupas e colchões rolam pelo ar. Um casal abraçado é separado, os bailarinos agem em grupo, como se fugissem da catástrofe, gemem, caem, voltam a levantar-se. Em tudo isto, muita poeira, que sai do chão, dos corpos.


Da guerra (da sua violência e do ridículo humano em torno disto) nos falam produções contemporâneas - pelo menos, assim as recebi quase todas ao mesmo tempo - o novo filme de Kusturika, o filme Silêncio, a peça Os Últimos Dias da Humanidade. A que junto o presidente louco e perigoso da maior democracia do mundo, cuja assinatura, para aparecer na televisão, tem quase a dimensão de uma folha A4. Parece que a esperança está a desaparecer.

Intérpretes: Beatriz Dias, Carla Ribeiro, Marta Lobato Faria, André de Campos, Bruno Alexandre, Bruno Alves e Francisco Rolo. Seleção musical de Olga Roriz e João Rapozo com música de Aphex Twin, Ben Frost, Dahfer Youssef, Gavin Brayers, Max Richter e Two Fingers. Cenografia e figurinos de Olga Roriz e Paulo Reis. Imagem retirada da página do Facebook da companhia de Olga Roriz. A dança estreou em final de abril de 2016 no Centro Cultural de Ílhavo. Vi-a agora no Teatro Nacional de S. João (Porto).

Página 1 de novo

Texto retirado do semanário Musicalíssimo, de 2 de fevereiro de 1973, dedicado ao programa Página 1, assinado por Mário Contumélias. Numa das emissões, José Manuel Nunes passou  José Mário Branco, José Afonso, Mário Viegas (poesia) e Sérgio Godinho, num domínio técnico-estético posto ao serviço da informação: "Quem ouviu esta emissão da página ficou informado, quase sem palavras, unicamente pela música, mas de uma forma dinâmica de diferente carga de força expressiva".


26.1.17

Rádio Clube de Moçambique em 1959

Rádio Clube de Moçambique editou um folheto em 1959, mostrando a importância da rádio em Moçambique.

25.1.17

Despedida de um crítico de arte: Jorge Louraço Figueira

"Quando assumi o papel de crítico teatral, imaginei uma comunidade de debate onde o teatro era não tanto um espelho que refletia a sociedade, mas mais um martelo que forjava a realidade. Essa comunidade parece que se desvaneceu com o tempo. Termina aqui a minha ação enquanto crítico teatral do Público. Quando comecei, em 2005, escrevia uma crítica por mês, sobre espectáculos do Porto. Em Lisboa, havia mais duas pessoas a fazer crítica teatral. No Diário de Notícias e no Expresso havia textos todas as semanas. Hoje, só a Time Out Lisboa e o Jornal de Letras publicam regularmente. Na rádio e na televisão, na imprensa diária e semanal, nada", Jorge Louraço Figueira (Público, 20 de janeiro de 2017).

O crítico quase que termina assim: "A imprensa faz parte do espectáculo. Os artistas do teatro independente tiveram como sucessores os diretores de salas de espetáculos. Os jornalistas viram suceder-lhes as agências de comunicação. O formato das críticas está vazado, posto que foi ao serviço de tudo menos do teatro. A alternativa é acordar. O teatro tem como primeiro e último reduto a cena. Há festivais, teatros e artistas que trabalham contra os ventos. É preciso estar entre eles, dentro de cena, lutando com as armas da ficção e da atuação para impedir que as salas de teatro fechem".

24.1.17

Polaroid Park


Depois de exposições coletivas na Fábrica Braço de Prata em Lisboa, AMAC no Barreiro, Casa da Cultura de Beja, Casa da Zorra em Évora e UFCA em Algeciras, o Polaroid Park instala-se agora na Casa da Avenida em Setúbal. 28 fotógrafos partilhando o seu interesse pela fotografia em polaroid apresentam um conjunto de projetos individuais. Bem vindos ao POLAROID PARK (informação da entidade promotora).

Rádio Voz de Santo Tirso

A administração da Rádio online RVM (Rádio Voz de Matosinhos) adquiriu a Rádio Voz de Santo Tirso. Assim, a partir de 1 de fevereiro, nasce um novo projeto da empresa Rádio Voz de Matosinhos, Lda. A Rádio Voz de Santo Tirso funciona em FM (88,6 MHz) e em on line (Rádio Voz de Santo Tirso) e apresenta programação diversificada mas com predomínio de música portuguesa e de expressão portuguesa. Objetivo: alargar horizontes e servir em FM a comunidade de ouvintes, nomeadamente em Santo Tirso, Trofa, Vila das Aves, Famalicão, Maia, Matosinhos, Porto e Gaia, e online em todo o país e mundo.

Segundo comunicado da entidade promotora, a equipa tem ótimos profissionais e semiprofissionais da comunicação em Santo Tirso, com estúdios e equipamentos de alta tecnologia na rua Sacadura Cabral, 146 /rc (Santo Tirso), mantendo estúdios em Matosinhos (rua Conde S. Salvador, 352, 1º, salas 4/5), em frente ao mercado. Continuarão a emitir alternadamente e em simultâneo com Santo Tirso. Diretor: Manuel Monteiro.

22.1.17

A Noite de Iguana

Esta é a quarta e última peça de Tennessee Williams (1911-1983) encenada nos Artistas Unidos. Depois de Jardim Zoológico de Vidro, Doce Pássaro da Juventude e Gata em Telhado de Zinco Quente, chegou a vez de A Noite da Iguana (1961). Com Nuno Lopes (Lawrence Shannon), Maria João Luís (Maxine Faulk), Isabel Muñoz Cardoso (Judith Fellowes), Joana Bárcia (Hannah Jelkes), Pedro Carraca (Hank Prosner), Tiago Matias (Jake Latta), João Meireles (Herr Fahrenkopf), Vânia Rodrigues (Frau Fahrenkopf), Pedro Gabriel Marques (Pancho), Catarina Wallenstein (Charlotte Goodall), Américo Silva (Nonno), João Delgado (Pedro), Bruno Xavier (Wolfgang) Ana Amaral (Hilda).

Lawrence Shannon, sacerdote expulso e depois guia turístico, chega a um pequeno hotel no México, fora das grandes cidades e do programa da viagem, onde reencontra Hannah Jelkes, agora viúva de Fred, com quem ele costumava conversar. As excursionistas resistem a permanecer no local, em especial Judith Fellowes. No final, o grupo da viagem triunfa e segue caminho, mas sem Shannon.

O antigo padre conhece, no pequeno hotel, Maxine Faulk, acompanhada pelo seu avó, o até aí poeta mais antigo em atividade. Os dois aproximam-se, em especial por um problema comum, a da necessidade de serem aceites pelos outros. Do mesmo modo que a iguana, que os empregados do hotel capturaram, Shannon e Faulk estão presos por cordas. O primeiro chega mesmo a ficar amarrado, depois de uma cena de grande ira, remediada à força por Hannah Jelkes, que o conhecia há muito e nutria uma paixão forte por ele.

A peça decorre, assim, em torno de três personagens, ele e as duas mulheres. Os encontros e desencontros acabariam por Lawrence Shannon ficar a co-gerir o pequeno hotel, junto a Hannah Jelkes, enquanto Maxine Faulk se afastaria. Como nas outras peças de Tennessee Williams, após um começo ou primeiro ato de múltiplas personagens com questões distintas e que fazem uma espécie de puzzle de temas, a segunda parte da peça entra no detalhe e na intimidade. A longa noite de insónias para as personagens principais, em que a iguana é liberta por ser uma criatura de Deus, retrata a obsessão com o mal e as trevas e as tentativas de êxito ou insucesso nessa luta. A velha solteirona ensina o mau padre a reencontrar-se consigo, ficando ao lado da viúva prática. A Noite de Iguana, como o autor diria, é uma peça sobre como viver para lá do desespero.

Encenação de Jorge Silva Melo, com cenografia e figurinos de Rita Lopes Alves, em coprodução dos Artistas Unidos, São Luiz e Teatro de São João (Porto).

Avenidas sem trânsito em Lisboa

Hoje, durante o dia, as avenidas da República e Fontes Pereira de Melo, parcialmente, estão encerradas ao trânsito rodoviário. Após conclusão de obras de requalificação, os espaços foram tomados pelos peões, com festa ao longo das duas vias.

21.1.17

João Paulo Guerra recusado para o lugar de provedor do ouvinte

João Paulo Guerra foi recusado para o lugar de provedor do ouvinte pelo Conselho de Opinião (CO) da RTP. No final de novembro, tinha sido recusado o nome de Joaquim Vieira. Agora, foi a vez de jornalista João Paulo Guerra, também colaborador da Antena 1. A administração da RTP terá de indicar um terceiro nome para suceder a Paula Cordeiro.

Atualização a 23 de janeiro de 2017: "O provedor do telespetador da RTP, Jorge Wemans, afirmou hoje estar «atónito e profundamente chocado» com o chumbo do nome do jornalista João Paulo Guerra para provedor do ouvinte pelo Conselho de Opinião, na passada sexta-feira. «Estou atónito e profundamente chocado com a recusa do Conselho de Opinião da RTP de aceitar João Paulo Guerra como provedor do ouvinte. Não vislumbro qualquer fundamento para esta decisão», afirmou Jorge Wemans, num comunicado (Diário de Notícias). Não terão sido divulgadas as razões do Conselho de Opinião e Jorge Wemans, nomeado provedor do telespectador, função iniciada há um mês, questiona a posição vinculativa daquele conselho e reserva-se o direito de tomar posição sobre a decisão.

Atualizado a 24 de janeiro de 2017: "O Conselho de Opinião da RTP chumbou o nome de João Paulo Guerra para Provedor do Ouvinte. Já tinha feito o mesmo com Joaquim Vieira. Em 2010, vetou o meu nome para Provedora da Televisão. Os possíveis provedores são indicados pelo Conselho de Administração da RTP e são depois obrigados a submeter-se a um sinistro exame feito por conselheiros cujo percurso profissional, a maior parte das vezes, não os habilita a julgar quem têm à sua frente. No meu caso, a RTP recorreu ao tribunal onde se exigiu a gravação da memorável audição. Nunca essa gravação apareceu, apesar de ter sido feita. E nunca ninguém explicou publicamente a razão de tão misterioso veto, embora todos os que estavam envolvidos dominassem bem o que se passou nos bastidores. Por conhecer os corredores de toda a situação, desisti do processo em tribunal, porque me cansei dessa gente. A pergunta que se coloca é a seguinte: pode o Conselho de Opinião continuar a ter este poder"? (Felisbela Lopes).

Atualizado a 29 de janeiro de 2017: ver a página do Facebook Provedor João Paulo Guerra, não. Porquê?

Atualização a 4 de fevereiro de 2017: "O Conselho de Opinião da RTP concluiu hoje [3 de fevereiro de 2017] não ser possível fundamentar o chumbo do nome do jornalista João Paulo Guerra para Provedor do Ouvinte, sendo o resultado da votação enviado à administração sem a exigida fundamentação. O Conselho de Opinião da RTP tinha convocado com urgência um plenário para hoje sobre o chumbo de João Paulo Guerra. Em comunicado, aquele órgão adiantou que, tendo reunido para deliberar sobre a fundamentação da votação havida, no dia 20 de janeiro último, sobre o candidato a provedor do ouvinte, senhor João Paulo Guerra, o Conselho de Opinião da Rádio e Televisão de Portugal, concluiu hoje não ser possível fundamentar esse voto em cumprimento do disposto do n.º 5 do artigo 34.º dos Estatutos da empresa. Por isso, foi aprovado pelos conselheiros -- por unanimidade e aclamação -- o envio ao Conselho de Administração [da RTP] do resultado da votação, desfavorável ao candidato, sem a exigida fundamentação" (TSF).

Atualização a 6 de fevereiro de 2017: "O jornalista João Paulo Guerra é o novo Provedor do Ouvinte da Antena 1 e restantes rádios do grupo RTP. Como assume hoje funções, já não vai assinar O Fio da Meada da próxima sexta-feira. A tarefa fica em boas mãos: será um prazer escutar de novo na telefonia a Alexandra Lucas Coelho" (João Paulo Baltazar).

Parabéns ao novo provedor do ouvinte.

Cais da Pedra, Cais Real e Cais das Colunas

O livro de Alexandra de Carvalho Antunes, Cais da Pedra e Cais Real. Planos Joaninos para a Marinha de Lisboa, foi lançado o mês passado, editado pela Canto Redondo.

Do prefácio de Vítor Serrão, retiro o seguinte: durante séculos, houve estruturas efémeras de desembarque de embaixadas, visitantes e comitivas oficiais na margem direita do rio Tejo, compreendendo o Terreiro do Paço da Ribeira, seu cais de pedra, e  o cais real, na Praça de Belém, contíguo ao palácio realengo.

O texto agora publicado integra-se no trabalho de pós-doutoramento e que culminará numa monografia sobre o Cais das Colunas. Alexandra de Carvalho Antunes tem mestrado em Arte, Património e Restauro, com o trabalho A Arquitetura de Veraneio e o Palácio Anjos em Algés, depois publicado em livro e que fiz referência em novembro de 2007 aqui (O veraneio da família Anjos. Diário de Maria Leonor Anjos (1885-1887)). A investigadora concluiria ainda doutoramento em Arquitetura.

Trabalhando com fontes primárias, permitindo reconstituir no seu conjunto os equipamentos urbanos da faixa ribeirinha e revelar as suas formas e funções como melhoramentos portuários, Alexandra de Carvalho Antunes remonta a atual Praça do Comércio ao final do século XII, com aterros e assoreamentos sucessivos (p. 19). O topónimo Terreiro do Paço é devido a D. Manuel I, que trocou o Paço Real da Alcáçova, na colina do Castelo de S. Jorge, pelo Paço da Ribeira (p. 21). A construção de um cais de pedra iniciou-se nesse período. Muito depois, discutiram-se as questões do lançamento de imundícies no cais e a necessidade de reparar o edifício da alfândega do tabaco e relançar o cais já destruído (p. 25).

A designação do termo cais da pedra, em finais do século XVI, identificou cais de cantaria próximos dos Paços da Ribeira (p. 28). O próprio Cais das Colunas, no Terreiro do Paço, acumulou os dois nomes. Os cais de pedra iam de Marvila a Belém (p. 36). O de Belém, desenhado por Carlos Mardel, surge na bela capa do livro, com "uma vasta e formosa praça, com um  amplo cais de cantaria sobre o Tejo", como se escrevia num documento da época (p. 44). As obras de construção do novo porto de Lisboa acabariam com o cais da praça de Belém, aliando-se às obras da linha de caminho de ferro Cascais-Lisboa, a funcionar desde 1889-1895 (p. 47).

O livro tem 15 páginas com planos, desenhos e gravuras que revelam a beleza dos cais da pedra junto à margem direita do rio Tejo. Tem ainda dois anexos, referentes a documentos de 1742, onde se elenca um conjunto grande de argumentos para a construção dos cais da pedra, incluindo a segurança, a defesa da cidade e o combate às lixeiras junto do rio e visíveis na maré vaza.

Da leitura deste livro, extraio conclusões, a primeira das quais o fechamento do rio por infraestruturas estatais, como o porto de Lisboa. Um movimento contrário nos anos mais recentes está a permitir, de novo, usufruir o contacto com o rio e numa grande extensão da costa ribeirinha. A segunda conclusão é o reflexo social provocada pela mudança de transportes: se o rio e o navio eram essenciais no transporte de pessoas e bens, a estação de caminho de ferro do Rossio, na baixa da cidade, alterou o uso social no tocante a pessoas. Nas décadas iniciais do século XX, as personalidades mais importantes eram alvo de acolhimento público à saída e chegada do comboio, o que se alterou quando o aeroporto entrou em funcionamento e visível nas fotografias tiradas junto ao avião à partida, para memória futura. Do rio e dos seus cais de embarque ficava então uma ideia ténue. O livro de Alexandra de Carvalho Antunes, numa vertente histórica e de arquitetura, vem situar de novo o tema, a que podemos associar os aspetos sociais, económicos e culturais. Uma terceira questão é a massificação do transporte - as pessoas viajam cada vez mais e as estruturas adaptam-se a essa procura e velocidade.

20.1.17

Revista Portuguesa de História da Comunicação

Está desde hoje disponível na internet o número zero da Revista Portuguesa de História da Comunicação.

Textos da sua editora Patrícia Teixeira (Introdução), Alberto Pena-Rodríguez (Apuntes históricos del Diario de Noticias de New Bedford (1927-1973)), Aline Strelow e Nádia Alibio (O Lábaro: Um jornal literário positivista no Sul do Brasil), Ana Regina Rêgo e Ranielle Leal Carlos (Castello Branco e a construção da Anistia no Brasil: a imposição do esquecimento), Antônio Hohlfeldt (Os médias e o império português nos séculos XIX e XX), Carla Baptista e Cláudia Henriques (O caso do Bispo do Porto na imprensa portuguesa (1958-1974): um episódio de resistência dos jornalistas durante o Marcelismo), Francisco Rui Cádima (O (des)controlo da Internet: para uma história da Darknet), Jaume Guillamet (Crisis del periodismo y naturaleza de los medios: El final de un ciclo), Maria Inácia Rezola (Emissora Nacional (1974-1975): uma estação do povo, ao serviço do povo), Rogério Santos (As audiências como elemento de compreensão das tendências da rádio entre as décadas de 1940 e 1970), Suzana Cavaco (Imprensa portuguesa em busca de um mercado luso-brasileiro (1825-1914)), Xosé López, Ana Isabel Rodríguez Vásquez e Andrea Valencia-Bermúdez (El Caton Compostelano: 217 anos de publicacións periódicas na Galiza).

Obrigado a Patrícia Teixeira e Jorge Pedro Sousa pelo trabalho na revista e no grupo de trabalho de História da Comunicação da SOPCOM.

19.1.17

A importância da atual música portuguesa (Eurosonic, em Groningen, Holanda)

"Para ele [John Gonçalves, um dos músicos e também manager dos The Gift], que já percorreu as mais importantes feiras do mundo – da Popkomm de Berlim ao South By Southwest de Austin – solitariamente com os Gift, o que aconteceu foi «inacreditável». Em todos os acontecimentos onde esteve com os Gift, diz ele, «era complicado dar-mo-nos a conhecer. Por mais que se tente, se faça um bom trabalho, se toque ou se faça contactos, és sempre apenas mais um no meio de mil». Nas reuniões onde participou ao longo dos anos defendeu sempre «que era preciso a indústria organizar-se e fico contente que se tenha conseguido agregar agentes, managers, artistas, editoras e uma série de entidades»" (Vítor Belanciano no jornal Público sobre a música portuguesa vista de fora).

Estiveram 23 grupos e artistas portugueses e quase 100 profissionais, entre promotores, agentes, managers, produtores ou editores. O jornalista destacou os músicos e bandas Marta Ren, The Gift, Gisela João, Throes + The Shine, Best Youth e DJ Ride.

Texto importante a ler.

18.1.17

Cinema Tivoli

Hoje, foi lançado na livraria Ferin (Lisboa) o livro de Duarte de Lima Mayer e João Monteiro Rodrigues Cinema Tivoli. Memórias da Avenida, apresentado por José Sarmento Matos.

Trata-se de um livro de design muito bem feito (Silvadesigners) e que partiu de um espólio fotográfico perdido numa gaveta, com personalidades não identificadas então. Conforme Duarte de Lima Mayer, neto do fundador do Tivoli, ele endereçou o convite a João Monteiro Rodrigues, arquiteto e com gosto pela música, participante no coro do Teatro S. Carlos, para a obra em conjunto, que terá demorado mais de três anos a fazer. Ao espólio fotográfico da família, o livro juntou imagens da Fundação Calouste Gulbenkian, Arquivo Municipal de Lisboa, Cinemateca Portuguesa e Teatro D. Maria II, além de outros espólios.


[na foto, da esquerda para a direita: João Monteiro Rodrigues, Duarte de Lima Mayer e José Sarmento Matos]

O livro debruça-se sobre a atividade da sala entre 1924 e 1973, arco histórico de 50 anos, onde se processaram muitas mudanças estéticas, sociais e económicas. O Tivoli dedicou-se ao cinema (mudo e sonoro), ao teatro, à música e à dança. Um agente privado (uma família), proprietário de equipamento cultural, levaria artistas para apresentação pública, um retrato de uma época que já não é a nossa, em que havia um grande leque de interesses culturais. A relação entre Frederico Lima Mayer - e, depois, o seu filho Augusto de Lima Mayer, que assumiu a gestão do Tivoli em 1944 - e outros empreendedores culturais, músicos, bailarinos e atores fazia-se com grande informalidade, ainda não havia agentes artísticos a mediar entre o equipamento cultural e o artista. Raul Lino, arquiteto do Tivoli, seria também melómano e apaixonado pela dança. A ideia era criar na cidade um espaço moderno em zona acessível mas afastado dos pólos urbanos tradicionais - Rossio e Chiado (p. 196). No cinema Tivoli, passou também a Fundação Gulbenkian, antes desta ter sede na Praça de Espanha, o que conferiu maior peso simbólico ao cinema, com programação dedicada às artes performativas.

O apresentador, José Sarmento Matos, destacou a história rica do Tivoli, uma instituição privada que ligou arte e economia, pois o empreendimento visou dar dinheiro. O Tivoli surge muito depois da abertura da avenida da Liberdade, o antigo Passeio Público (1879), alameda que o presidente da câmara Rosa Araújo quis marcar dentro da cultura regeneradora. Mas foi o cinema que deu vida à avenida. Isto porque os espaços culturais, de lazer e noturnos e a vida palpitante da cidade ficavam na estreita rua das Portas de Santo Antão, incluindo o Ateneu e a Sociedade de Geografia. A avenida era até então conhecida pelo "lá vai um", de pouco frequentada. Aliás, os distribuidores de cinema não quiseram passar as fitas de cinema no Tivoli, porque ele ficava muito longe da cidade. Depois do Tivoli, nasceriam o Éden (anos de 1930) e o S. Jorge (anos de 1950). O Tivoli apresenta um gosto ligado a salas de espetáculos que Lima Mayer vira no estrangeiro, associado à cultura alemã de Raul Lino. Após a I Guerra Mundial, a classe média elaborada, restrita, de elite, teria o Tivoli como referência nova e cosmopolita.

O livro tem textos de Duarte de Lima Mayer, José Sarmento de Matos, Flávio Tirone, Miguel Simal, João Paes, Leitão de Barros, João Bénard da Costa, Miguel Esteves Cardoso, Duarte Ivo Cruz, Jorge Silva Melo, João de Freitas Branco e Bernardino Pontes, Helena Vaz da Silva e Luís Antunes. Com 295 páginas.

No texto de João Paes sobre a música, ele fala de Pedro de Freitas Branco, da sua fama de condutor de orquestras e dos concertos de música de Ravel (como o Bolero), do seu casamento com a francesa Marie Lévêque, dos concertos sinfónicos do Tivoli (1928-1932), da temporada de 1933-34 (Mónaco e Bélgica) e do convite para dirigir a Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, efetivado em 1935 (p. 205). Nesta página, uma fotografia significativa, com Olga Cadaval, Marie Lévêque e Arthur Rubinstein.

17.1.17

Late Lounge

The Late Lounge, de Claire Anderson, na rádio Jazz FM (Londres), chegou ao fim já em 2016. Mas pode continuar a ouvir-se aqui, com um podcast semanal.

16.1.17

Maria Cabral

"«Era uma mulher lindíssima e talentosíssima», disse Vasco Pulido Valente em 2007 sobre a ex-mulher", Maria (da Conceição Gomes) Cabral (Público), com quem teve uma filha. Maria Cabral morreu sábado em Paris com 75 anos. Nascida em Lisboa (1941), ela estudava filosofia e trabalhava como modelo de publicidade quando António da Cunha Telles a convidou para o elenco do filme O Cerco (1970). Do mesmo realizador, entrou em Vidas (1984) e participou em outros filmes como O Recado (1972), de José Fonseca e Costa, Um Adeus Português (1986), de João Botelho, e No Man’s Land (1985), de Alain Tanner. Foi o rosto feminino do cinema novo português.