sexta-feira, 16 de setembro de 2016

História e memória em Fernando Rosas

Fernando Rosas, professor catedrático na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, fundador e até há pouco tempo diretor do Instituto de História Contemporânea proferia a sua última lição em 26 de abril de 2016, texto agora editado pela Tinta da China. Além desta lição, o livro traz textos de apresentação do percurso intelectual (e político) de Fernando Rosas - Helena Trindade Lopes, Luís Trindade e Francisco Louça. A parte final do livro tem uma longa entrevista conduzida por Luís Trindade ao autor de livros como Salazar e o Poder. A Arte de Saber Durar (2012) e A Transição Falhada. O Marcelismo e o Fim do Estado Novo (1968-1974) (2004)(coordenado por ele e por Pedro Aires de Oliveira).

A última aula teve o título exato de História, (Des)memória e Hegemonia. O autor situa o começo da desinquietação que leva ao assunto nas duas últimas décadas do século XX: a revisão das representações do passado, associada à emergência de uma nova ordem conservadora - o neoliberalismo. Há uma "gigantesca releitura do mundo" do passado, caso da desculpabilização da ditadura de Salazar (p. 54) ou da manipulação da história com fins mediáticos como o concurso de Grandes Portugueses em 2006-2007 (p. 72), que levam habitualmente a uma obsessão memorial (p. 58) e a uma visão desdramatizada do passado (p. 73), a qual se distingue da nova investigação histórica e abertura de novos arquivos e documentação, além da recolha de fontes orais (p. 50). Melhor dizendo, segundo Fernando Rosas: História académica e usos públicos da memória cruzam-se mas não se devem confundir (p. 56). Ou como ele chama ao longo do texto - a memória-prótese por oposição ao revisionismo (p. 59). No autor, em pano de fundo, a interpretação do período revolucionário português (1974-1975) e a democracia institucionalizada em 1976 - os seus autores, os seus pontos de vista e a apropriação hegemónica dos vencedores.

A entrevista dada a Luís Trindade reflete muito o pensamento do autor, dando-o a conhecer melhor para quem não priva com ele. Primeiro o percurso político: do Partido Comunista ao MRPP e, depois, ao Bloco de Esquerda. Depois, as filiações culturais de um licenciado em Direito que reverte toda a sua disponibilidade intelectual para a História: Manuel Villaverde Cabral, Manuel de Lucena e Vasco Pulido Valente em livros publicados na passagem da década de 1970 para a seguinte. Dos três, há um pequeno pormenor, mas que acho delicioso, sobre Vasco Pulido Valente e a "malvadez" que o caracteriza e que desconstrói a visão mítica republicana maçónica da Primeira República, porque a "rapaziada" (os dirigentes) do partido Republicano aproveitou-se do que outros fizeram para derrubar a monarquia (p. 96). E há ainda espaço para reconhecer a importância de um historiador como Joel Serrão, que morreu dez anos antes de morrer e a quem o país ainda não prestou a devida homenagem (p. 116). Os outros centros da entrevista são a revista História, os cursos de mestrados que abriram portas à investigação das estruturas ligadas ao Estado Novo (PIDE, Mocidade Portuguesa) e a abertura de arquivos como a Torre do Tombo (caso dos arquivos Salazar e PIDE), esperando ele que outros arquivos se abram (Igreja Católica, Partido Comunista).


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